23 março, 2026

Na guerra, morte e escassez são produtos, a fome de lucro dos fabricantes de armas não tem limite

 

A sequência em escalada das guerras na Ucrânia e no Irã em março de 2026 amplia a volatilidade dos preços, mundiais com os mercados regionais e nacionais monitorando de hora em hora, principal e primordialmente a segurança de rotas ferroviárias, rodoviárias e marítimas de transporte de grãos, petróleo e gás, radares, bases de ataque e lançamento de drones e mísseis, instalações nucleares. A combinação de ataques a redes elétricas, dutos de petróleo e gás e à logística de produção, armazenamento e transporte de dados militares ou financeiros, grãos e combustíveis gera um efeito cascata que encarece o custo de qualquer mercadoria e pressiona os preços de tudo em todo o mundo. Na guerra, nem a escassez é o limite, nem a paz é objetivo, se o exame percebe a pessoa ou o lucro dos fabricantes de armas.

       Drone russo explode em Odessa, em 1º de março de 2026. CNN

O redirecionamento dos fluxos ucranianos de Odessa para as rotas do Danúbio e fronteiras terrestres não representa apenas uma manobra de sobrevivência econômica, mas a exposição de uma nova vulnerabilidade na guerra moderna: a fragilidade dos nós logísticos. Assim como no Estreito de Ormuz, onde a guerra reiniciada pelos EUA e Israel contra alegada “ameaça nuclear iraniana” transcende o bloqueio físico do canal de exportação de óleo, gás e fertilizantes, para atingir ativos financeiros e sistemas de dados, de radar e bases militares territoriais e náuticas, através de enxames de drones e guerra cibernética, a ofensiva russa contra bases e campos de treinos, portos e junções ferroviárias da Ucrânia revela similar estratégia de estrangulamento sistêmico.

A invasão russa em grande escala contra a Ucrânia iniciou em 24 de fevereiro de 2022. A operação militar começou com bombardeios e ataques terrestres, marcando o maior conflito armado na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Embora a invasão em larga escala seja de 2022, as tensões começaram em 2014 com a anexação da Crimeia pela Rússia e com as batalhas de perfil guerra civil nas regiões russófonas do Donbass.

A Ucrânia superou os momentos de desorganização de um exército pouco profissional com processo de formação e ampliação acelerado pela urgência. Nessa queima de etapas da formação regular continuada, incorporou o Batalhão Azov (atualmente Brigada Azov), uma unidade militar ucraniana com origem em milícia voluntária de extrema-direita ressurgida em 2014, com histórico de ligações a ideologias neonazistas e supremacistas brancas em sua formação. Incorporado formalmente ao exército regular da Ucrânia, o Batalhão Azov tem hoje o status de Guarda Nacional, tendo passado, segundo informações oficiais, por um processo de "despolitização" ao longo dos anos, ainda que continue sendo acusado de neonazista pelas raízes ideológicas.

A principal modernização das forças militares ucraniana se deram no campo da defesa antiaérea e criação e operação de drones de defesa e ataque com significativos impactos na guerra territorial e contra a frota russa no Mar Negro utilizando uma estratégia assimétrica inovadora, focada na destruição de navios de alto valor com drones navais e mísseis, forçando a Rússia a optar pelo retirada da força de infantaria blindada, que chegara as portas de Kiev, e do recuo da frota de Sebastopol na Crimeia para bases mais distantes, como Novorossiysk. 

A atual opção estratégica da Rússia foca em neutralizar os centros operacionais e a infraestrutura de energia e transportes.

Praticamente sem marinha convencional, com o uso de drones, a Ucrânia revolucionou a guerra naval. O uso de drones de superfície pequenos, rápidos, difíceis de detectar que carregam cargas explosivas, como o Magura V5 e Sea Baby, vem sendo a principal arma responsável por afundar ou danificar gravemente corvetas, navios de desembarque e patrulha. O Neptune, um míssil de fabricação ucraniana, foi usado no afundamento do cruzador Moskva em 2022. O Harpoon, míssil antinavio fornecidos pela OTAN, opera a partir de lançadores baseados em terra. O uso de mísseis aéreos de cruzeiro, tipo Storm Shadow/SCALP, lançados por aeronaves ucranianas Su-24 focaram em alvos fixos, incluindo a sede da frota em Sebastopol e submarinos no porto. 

A Inteligência de Defesa da Ucrânia (GUR) coordena ataques com drones e colabora com agentes no terreno para guiar mísseis contra radares, sistemas de defesa aérea (S-400) e centros de comunicações. 

Essas ações resultaram na neutralização de cerca de 25% a 30% da frota russa, forçando a redução da presença naval na Crimeia, possibilitando que a Ucrânia retomasse parcialmente o corredor de grãos.

Em ambos os cenários das duas guerras, como visto nos casos de Odessa e no Estreito de Ormuz a estratégia deixa de focar exclusivamente na conquista territorial para priorizar a interdição de fluxos vitais, utilizando uma coordenação técnica de dados e bombas, a dos iranianos, possivelmente alimentada por inteligência compartilhada entre potências do eixo eurasiano, a dos ucranianos alimentada por países da OTAN, como evidente em Vasylkiv, o que transforma a infraestrutura civil e os dados digitais nos campos de batalha decisivos deste segundo quarto do século 21.

 

Segundo informações recentes, as forças russas atingiram áreas militares na região de Vasylkiv, ao sul de Kiev, com foco em infraestrutura de defesa.

Ataques ocorridos do fim de semana de 14-15 de março de 2026 atingiram um local de treinamento militar ucraniano que, segundo relatos, estava sendo utilizado para lançar drones de longo alcance. Relatos indicam a destruição de drones de fabricação francesa e componentes associados que haviam sido implantados na área de Vasylkiv. A ofensiva também visou locais de armazenamento de equipamentos militares, com relatos de baixas entre as tropas ucranianas e possíveis especialistas estrangeiros na região.

A ação fez parte de uma campanha mais ampla de mísseis e drones da Rússia, que na mesma época atingiu infraestruturas energéticas em outras regiões da Ucrânia, em que um dos alvos específicos foi a infraestrutura do oleoduto Odessa-Brody. Drones atingiram estações de bombeamento no Sul com o objetivo de interromper o fornecimento de petróleo não-russo para a Europa (na mesma semana em que os EUA levantavam por 30 dias sanções às exportações de petróleo e gás russos).

Em Odessa, os ataques russos com drones e mísseis se estenderam pela semana seguinte e focaram intensamente na infraestrutura crítica portuária, danificando armazéns e sistemas de transporte, subestações e instalações de energia em toda a região, causando incêndios e interrupções significativas no fornecimento de eletricidade.

Grupos de drones (estimados em levas de 15 a 25 unidades, com capacidade tática de cegar radares e baterias antiaéreas) atingiram alvos descritos como áreas de uso das forças ucranianas na região de Odessa, visando dificultar a movimentação de reservas para a linha de frente.

Em Zaporizhzhia, os ataques foram marcados pelo uso de bombas aéreas guiadas e drones, atingindo também infraestrutura civil.

Relatos atualizados indicam que a situação na Usina Nuclear de Zaporizhzhia (ocupada e mantida sob controle russo desde o início da guerra) permanecia estável, operando via linha de alta tensão, apesar do contexto de hostilidades na região.

Estes bombardeios ocorrem combinados com intensificação da ofensiva russa contra grandes centros urbanos e redes de energia ucranianas. A partir de 13 de março, alvejadas as instalações em Vasylkiv, Odessa e Zaporizhzhia, revelam uma estratégia coordenada de asfixia logística e interrupção de fluxos, visando degradar a capacidade ucraniana de sustentar as frentes de combate físico.

A avaliação estratégica desses movimentos combinados foca em três eixos principais:

Paralisação da Rede Ferroviária e Energética. Como o transporte ferroviário é a espinha dorsal da exportação de grãos e abastecimento de tropas (munições e equipamentos pesados), o corte de energia em Odessa e os danos em entroncamentos ferroviários dificultam o envio de reservas para o Leste, o Sul e o exterior.

O ataque em Vasylkiv visou especificamente neutralizar: locais de treinamento e lançamento de drones de longo alcance. Ao atingir essa infraestrutura, a Rússia tenta reduzir a capacidade da Ucrânia de contra-atacar as linhas de suprimento russas, protegendo fluxos logísticos.

A degradação da sustentação com ataque a infraestrutura civil em Zaporizhzhia e arredores, utilizando bombas guiadas, parece tática para tornar crítico o abastecimento local, inviabilizando o apoio a qualquer avanço territorial, em um momento em que a Ucrânia tentava recuperar território em Dnipropetrovsk e Zaporizhzhia, ainda que no final, em um inverno particularmente rigoroso de temperaturas geladas, neve tornando-se lama, os ataques à infraestrutura energética, tornando este um dos momentos mais difíceis da guerra, temperando o moral das tropas e do povo.

O foco na infraestrutura do oleoduto Odessa-Brody e em instalações de energia visou produzir déficit de combustível e eletricidade. Sem energia estável, a manutenção de equipamentos na retaguarda e a rapidez do trânsito logístico são severamente comprometidas, forçando a Ucrânia a priorizar recursos escassos.

A combinação desses ataques revela uma estratégia focada em destruição de equipamentos, neutralização de pessoal especializado e destruição de recursos para exaurir capacidades de luta. Em vez de batalhas decisivas ou manobras rápidas uma guerra em busca da vitória pelo cansaço, moral baixo e esgotamento econômico do oponente.

Transformando o conflito em uma guerra de atrição logística, a Rússia promove dificuldades estruturais para a Ucrânia levar suprimentos até a "ponta da linha" e mesmo se relacionar com o exterior através de toda a Frente Leste, a única que dá saída soberana ao mar, o que amplia os fatores limitadores para as operações de defesa e contraofensiva, impactando severamente os eixos de exportação e as rotas de suprimento, criando um cenário de "estrangulamento" logístico.

Na outra ponta do mapa, a Oeste, a estratégia de liquidação ou paralisação temporária de meios, foca no tráfego ferroviário de ajuda militar e civil vindo do Ocidente, que enfrenta interrupções críticas devido a danos nas redes ferroviárias na Polônia e Ucrânia que agravam o já problemático transbordo da carga transportada determinado pela diferença de bitolas dos dois países. Foram registradas explosões em linhas ferroviárias essenciais na Polônia, especificamente em rotas que ligam Varsóvia ao sudeste do país e à fronteira ucraniana.

A Polônia se diz o principal alvo de uma campanha de sabotagem e guerra híbrida russa na Europa. De acordo com relatórios de março de 2026, o país teria registrado cerca de 21% de todos os casos de sabotagem atribuídos a Rússia identificados no continente desde 2022.

As principais frentes dessa agressão incluiriam atos de sabotagem e espionagem. Em meados de março de 2026, as autoridades polonesas investigavam explosões e danos em linhas ferroviárias no sudeste do país, cruciais para o transporte de ajuda à Ucrânia. O governo classificou esses atos como "terrorismo de Estado". Nove pessoas foram presas sob suspeita de trabalhar para serviços especiais russos, planejando incêndios criminosos e agressões físicas em território polonês.

A Polônia e outros países da OTAN interceptaram encomendas contendo compostos inflamáveis enviadas para depósitos de logística (como a DHL), em um plano atribuído à inteligência russa para causar caos e testar vulnerabilidades.

Em setembro de 2025 ocorrera uma invasão massiva de pelo menos 19 drones espiões russos no espaço aéreo polonês, alguns penetrando centenas de quilômetros. O incidente levou a Polônia a acionar o Artigo 4 da OTAN para consultas de emergência. Em 17 de março de 2026, caças MiG-29 poloneses interceptaram um avião espião russo sobre o Mar Báltico.

A Polônia ainda mantém alerta máximo na fronteira com Belarus, acusando o governo vizinho e a Rússia de orquestrar uma crise migratória para desestabilizar o país.

Em janeiro de 2026, um ciberataque russo teria atingido o sistema energético polonês, chegando perto de causar um apagão nacional.

A Polônia respondeu elevando seus investimentos em defesa para mais de 5% do PIB e reforçando a presença militar nas fronteiras Leste e Norte (Kaliningrado).

A reação da OTAN aos ataques e sabotagens russas foram uma combinação de alerta máximo, mobilização aérea e o lançamento de novas operações de vigilância no flanco leste.

Em 14 de março de 2026, a Polônia e a OTAN colocaram aeronaves em alerta máximo após os ataques russos massivos na Ucrânia, a poucos quilômetros da fronteira polonesa. No dia 16 de março, caças F-16 e Eurofighter foram mobilizados para proteger o espaço aéreo da Romênia após detecção de drones próximos à fronteira.

A aliança está implementando a Operação "Sentinela do Leste" (Eastern Sentry) para reforçar as defesas aéreas integradas, enviando mais tropas, artilharia e sistemas de defesa (como os Patriots alemães) para países como Polônia e Lituânia. O objetivo é impedir que provocações com drones russos "normalizem" violações de território soberano de países do pacto atlântico.

Em consequência do cenário, a OTAN emitiu alertas severos à Rússia para que cesse atividades de sabotagem híbrida, ameaçando com "respostas assimétricas caso novos ataques contra infraestruturas críticas (como trilhos ou cabos submarinos) resultem em vítimas fatais”.

A Rússia intensificara ataques para paralisar a rede ferroviária ucraniana em 13 de março de 2026. Como o sistema de Kiev depende de eletricidade e possui bitolas diferentes das europeias, os danos em subestações de energia tornam o transbordo na fronteira extremamente lento.

A situação agrava o já precário fluxo de grãos em estado de alerta máximo devido aos ataques diretos à infraestrutura de Odessa. Bombardeios recentes atingiram armazéns de exportação e terminais portuários na região de mais intensos combates físicos por território, o que pode impedir a saída de milhões de toneladas de grãos.

Ataques à infraestrutura russa: A Ucrânia tem focado em atacar a infraestrutura de exportação de petróleo e combustíveis da Rússia, paralisando portos como Novorossiysk e atingindo petroleiros da "frota fantasma" russa no Mar Negro e no Mediterrâneo. Embora não seja um grande exportador de petróleo bruto, a Ucrânia possui exportações de carvão, produtos químicos, aço e alguns produtos petrolíferos.

Desde a invasão russa, a logística marítima ucraniana no Mar Negro foi severamente comprometida, tornando o embarque de petróleo bruto ucraniano inviável em larga escala

Com a ameaça constante aos portos principais, a Ucrânia busca escoar a produção pelos portos do rio Danúbio, alternativa estratégica para acessar o Mar Negro e escoar exportações (especialmente grãos) diante do bloqueio parcial e ataques esporádicos aos grandes portos de Odessa. 

Embora o Danúbio não substitua totalmente a capacidade de Odessa, ele funciona como uma rota vital de sobrevivência econômica através da fronteira com a Romênia e Moldávia, o que implica em um xadrez novo e arriscado, perturbado ainda pelas bitolas diferenciadas. Esta via tem capacidade significativamente menor do que os portos oceânicos.

A Ucrânia busca utilizar principalmente os portos fluviais de Izmail, Reni e Kiliia, localizados no extremo sudoeste do país, às margens do Danúbio.  Os produtos são carregados em barcaças nesses portos e transportados rio abaixo. Eles navegam por águas territoriais da Romênia (país membro da OTAN), fator que oferece uma camada extra de segurança contra ataques navais diretos. Grande parte da carga segue até o porto romeno de Constanta, no Mar Negro, onde é transferida para navios cargueiros maiores que seguem para o mercado global.

Desde o início da guerra, o volume de carga nesses portos fluviais aumentou significativamente, chegando a transportar milhões de toneladas por mês quando as rotas marítimas principais estavam totalmente interrompidas

A ONU e a UE discutem modelos de proteção para garantir a segurança alimentar, buscando replicar o sucesso passado da Iniciativa de Grãos do Mar Negro em outros contextos globais.

O Acordo de Grãos do Mar Negro (ou Iniciativa de Grãos do Mar Negro), que era mediado pela ONU e pela Turquia, não existe mais formalmente desde julho de 2023, quando a Rússia se retirou unilateralmente do pacto. 

Atualmente, a situação das exportações ucranianas pelo Mar Negro funciona pelo Corredor Humanitário Independente, estabelecido pela Ucrânia que alcança as costas marítimas da Romênia e Bulgária (águas territoriais da OTAN) para evitar o bloqueio russo em mar aberto.

Um Cessar-fogo Setorial em março de 2025 focava em não atacar infraestruturas de energia e garantir a navegação segura de cargueiros de grãos e fertilizantes.

Apesar dos riscos e de ataques pontuais a portos como Odesa e Izmail, a Ucrânia conseguiu retomar volumes significativos de exportação através dessa nova rota costeira e dos portos fluviais do Danúbio.

Embora a logística tenha se adaptado, a produção de grãos da Ucrânia na safra 2024-2025 foi uma das menores em uma década devido à redução das áreas de plantio causada pela guerra. 

A Rússia condiciona o retorno a um acordo formal pleno à suspensão de sanções que dificultam seus próprios pagamentos e seguros agrícolas (como a reintegração ao sistema SWIFT).

Em ambos os cenários das duas guerras, como visto nos casos de Odessa e no Estreito de Ormuz a estratégia deixa de focar exclusivamente na conquista territorial para priorizar a interdição de fluxos vitais, o que transforma a infraestrutura civil de energia e transportes e os dados digitais nos campos de batalha decisivos deste segundo quarto do século 21.

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