O primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu anuncia oficialmente a expansão da "zona de segurança" no sul do Líbano. Embora o governo já tivesse sinalizado dias atrás a intenção de controlar o território até o Rio Litani, a nova diretriz dada ao Exército (IDF) visa ampliar ainda mais essa área para neutralizar capacidades remanescentes do Hezbollah. Cerca de 3.500 pessoas já foram mortas por balas, bombas e foguetes israelenses. A estratégia militar de Tel Aviv no Líbano, intensificada em setembro de 2024 e com desdobramentos em 2025 e 2026, já foi descrita como uma réplica dos métodos utilizados na Faixa de Gaza, incluindo bombardeios pesados em áreas densamente povoadas e deslocamento populacional em massa, que têm garantido maioria parlamentar para vultosas suplementações orçamentárias e permanêrncia de Benjamin Netanyahu como o líder do bloco sionista e chefe plenipoitenciário de todos os israelenses
O objetivo estratégico alegado é o de sempre: afastar as
ameaças de mísseis antitanque e impedir tentativas de invasão terrestre contra
as comunidades do norte de Israel. Netanyahu afirmou que a zona tampão
existente será ampliada para "mudar fundamentalmente a situação no Norte".
Na prática, as tropas israelenses já avançam em direção ao Rio Litani e
atingiram afluentes estratégicos perto de vilarejos como Qantara.
Israel intensificou a demolição de casas em vilarejos
fronteiriços e a destruição de pontes sobre o Litani para isolar a região sul
do restante do Líbano.
À semelhança do ocorrido na ocupação das Colinas de Golan,
tomadas da síria, dois pontos centrais conectam a estratégia militar à
viabilidade de longo prazo de um território: recursos hídricos e controle
demográfico.
O Rio Litani é o "santo graal" hídrico
da região. Ele corre inteiramente dentro do Líbano, mas sua proximidade com a
fronteira sempre despertou interesse o interesse de Israel.
Controlar as margens ou o curso do Litani permitiria,
tecnicamente, o desvio de águas para o Negev ou para o Norte de Israel, que
enfrenta escassez hídrica crônica.
No projeto político-militar sionista do "Grande
Israel", a segurança hídrica é um pilar. Ter o controle físico do rio
garante que Israel não dependa apenas da dessalinização ou do Mar da Galileia.
Um rio não precisa de gente para correr. A tática de criar
uma zona de exclusão (despovoamento) serve à limpeza étnica e ao
controle do território.
Ao forçar a saída da população civil libanesa sob pretexto
de combate ao Hezbollah, Israel cria um vácuo demográfico. Historicamente,
áreas declaradas como "zonas militares fechadas" ou "zonas de
segurança" costumam ser o primeiro passo para a instalação de
infraestrutura civil (colonatos). Sem população local para oferecer resistência
cotidiana, a ocupação se torna menos custosa politicamente no início. A
ocupação do Rio Litani é um "detalhe de rodapé" para o
sistema global, mas um pilar fundamental para o projeto de Estado-Nação de
Israel.
O neoimperialismo aliado do projeto sionista sustenta essa
expansão porque ela garante um aliado estável e tecnologicamente avançado num
ponto estratégico, enquanto o resto do mundo se preocupa com o preço do frete
marítimo.
Em 2026, Israel anuncia o avanço para além do Rio
Litani. O objetivo declarado é a segurança, mas a prática aponta para a criação
de uma zona de exclusão despovoada, garantindo o controle de recursos
hídricos estratégicos e neutralizando a ameaça do Hezbollah sob o olhar
omisso da comunidade internacional (focada em Ormuz e Suez).
No entanto, desde 1948, Israel expandiu significativamente
seu território original de 55% da Palestina mandatária (Plano da ONU) após
guerras com vizinhos árabes. A maior mudança ocorreu na Guerra dos Seis Dias
(1967), ocupando a Cisjordânia, Faixa de Gaza, Península do Sinai e Colinas de
Golã, devolvendo o Sinai posteriormente, mas mantendo colonatos.
Principais Marcos Territoriais
Em 1948/1949, ano da fundação do Estado de Israel e da
Guerra da Independência, Israel foi criado com cerca de 53,5% da Palestina,
enquanto o Estado Palestino teria 45,4%, com Jerusalém internacionalizada. A
Guerra de Independência se encerra em 1949) com controle israelense de cerca de
78% do território e expulsão de cerca de 750 mil palestinos.
Em 1967 (Guerra dos Seis Dias), Israel ocupou a Península
do Sinai e Faixa de Gaza (do Egito), Cisjordânia e Jerusalém Oriental (da
Jordânia) e as Colinas de Golã (da Síria), a grande expansão é o marco inicial do neoimperialismo regional,
quando Israel triplica seu tamanho, ocupando as Colinas Golã, passando à gestão
regional da água, avançando sobre a Cisjordânia e Gaza, dando corpo físico ao projeto
político-militar sionista e iniciando o controle sobre as bacias hidrográficas
vitais.
Em 1979, assina a paz com o Egito, devolve a Península do
Sinai, um terreno vasto, seco e despovoado, em troca de reconhecimento
diplomático formal. O projeto sionista volta suas forças para o Norte,
iniciando a primeira ocupação prolongada do Sul do Líbano para criar a primeira
"zona de segurança".
Em 1993/1994, Israel assina os Acordos de Oslo, com a OLP,
estabelecendo a Autoridade Nacional Palestina, iniciando a devolução parcial de
áreas na Cisjordânia e Gaza, mas acabou estabelecendo um sistema de
"ilhas" de controle palestino cercadas por controle militar
israelense, mantendo as principais fontes de água e pontos estratégicos sob
domínio de Israel.
Em 2005, Israel retira os colonatos e tropas da Faixa de
Gaza, mas manteve controle exclusivo das fronteiras, espaço aéreo e marítimo, consolidando
o controle por "fatos consumados" e focando na anexação silenciosa e
expansão de assentamentos na Cisjordânia, utilizando barreiras físicas e
controle de recursos para fragmentar a soberania palestina.
Essa sequência mostra que, desde o início, a geografia de
Israel não é estática; ela se expande conforme a oportunidade militar e a
necessidade de recursos (água e terra) se alinham à tolerância global.
Atualmente, o que Israel pretende no Líbano, segundo suas
declarações oficiais e movimentações militares recentes em 2026, é consolidar
uma "zona de segurança" para neutralizar a ameaça do
Hezbollah e garantir o retorno dos residentes do norte de Israel às suas
casas.
Os objetivos estratégicos admitidos publicamente incluem criação
de um perímetro de segurança numa zona que se estenda para além do Rio
Litani a cerca de 30 km ao norte da fronteira), visando impedir que o
Hezbollah mantenha infraestrutura militar ou lance ataques diretos contra o
território israelense.
O governo israelense exige que as forças do Hezbollah se
retirem para o norte do Rio Litani, permitindo que apenas o Exército Libanês
(LAF) e forças da ONU (UNIFIL) operem no sul do país, conforme o estabelecido
pela Resolução 1701 da ONU.
Embora o Líbano tenha declarado atividades militares do
grupo Hezbollah como ilegais em março de 2026, Israel mantém pressão militar
para degradar a capacidade de mísseis e o comando da organização, que já teve
líderes como Hassan Nasrallah eliminados em fases anteriores do conflito.
Tais ações visam a neutralização da influência iraniana,
inviabilizando acesso ao Hezbollah, principal força militar em território
libanês.
A estratégia de destruição da infraestrutura para "limpeza"
de vilarejos no Sul e ultimatos para evacuação em massa buscam pressionar o
governo central do Líbano a assumir o controle total do território, embora haja
o risco de desencadear instabilidade interna ou até uma nova guerra civil no
Líbano devido às fraturas sectárias.
O anúncio ocorre em meio a uma campanha militar mais ampla
que Israel descreve como um confronto direto contra o Irã e seus aliados, após
escaladas contínuas iniciadas no em março de 2026.
Essa movimentação marca uma transição de ataques
transfronteiriços para o que observadores internacionais descrevem como uma
ocupação de longo prazo de 10% ou mais do território libanês
A estratégia militar oficial em conexão com a ideologia
expansionista é a síntese do projeto do "Grande Israel" (Eretz
Yisrael Hashlema). Enquanto o governo justifica a expansão para além do
Litani como uma necessidade de segurança nacional (parar foguetes e
incursões), a ala mais à direita do espectro político israelense evoca as
fronteiras bíblicas, que incluiriam partes do sul do Líbano.
O histórico de Israel mostra que "zonas de
segurança" temporárias podem se tornar ocupações de décadas (como ocorreu
no sul do Líbano entre 1985 e 2000). Para os defensores do Grande Israel, essas
ocupações são passos para a anexação definitiva.
A demolição de infraestrutura e a criação de "zonas
mortas" (áreas despovoadas) lembram a dinâmica aplicada na Cisjordânia,
onde o controle militar precede o controle territorial total.
Tudo se passa escancarado à vista do mundo, televisionado e
revela dramaticamente a ineficácia das instituições internacionais (como
a ONU) enquanto desvela a política de "fatos consumados".
No Conselho de Segurança da ONU, qualquer resolução prática
contra Israel é historicamente barrada por veto dos Estados Unidos. Sem sanções
ou consequências reais, as declarações de "preocupação" da comunidade
internacional tornam-se apenas retórica.
Então, Israel aplica no Líbano o que já funcionou na
Cisjordânia, que já funcionara no Golã: ocupa o território, destrói a
infraestrutura local e cria uma nova realidade física. Quando a diplomacia
finalmente tenta agir, a configuração do terreno já mudou tanto que a reversão
se torna impossível.
É quando as potências ocidentais parecem mais preocupadas
em evitar que o conflito se torne “uma guerra mundial contra o Irã” do que em
proteger a integridade territorial do Líbano. Uma explícita carta branca para
que Israel avance. No caso específico da água do Rio Litani e
da expansão territorial, o silêncio ou a lentidão internacional acabam
servindo como uma autorização tácita. Enquanto o mundo discute ajuda
humanitária, a geografia está sendo redesenhada de forma permanente.
Oficialmente, o Estado de Israel cala sobre os propósitos
de longo prazo ou nega a intenção de anexar o Líbano, tratando a operação como
uma manobra defensiva contra o Hezbollah. E, no entanto, o fato de a
"zona de segurança" estar se expandindo para além do limite
geográfico do Rio Litani consubstancia a tese de que o objetivo final pode ser
um redesenho permanente das fronteiras regionais, alinhado ao ideal
expansionista.
A Semelhança com a Cisjordânia é mais que coincidência. O
modelo que vai sendo praticado hoje no Líbano espelha o que foi feito no Vale
do Jordão. Declara-se a área como vital para a segurança do Estado de Israel,
restringe-se o acesso da população local aos recursos, à água e à terra, instalam-se
postos avançados que, com o tempo, viram comunidades permanentes.
O controle do Litani daria a Israel o domínio sobre a bacia
hidrográfica mais importante ao norte, consolidando uma hegemonia territorial
que vai muito além da simples defesa contra foguetes.
O Líbano, como Estado fragmentado, não tem condições
de oferecer algum tipo de resistência diplomática ou militar que mude esse rumo
empreendido pelo projeto político-militar sionistas desde a tomada das Colinas
de Golã, o "modelo" perfeito para o acontece agora no sul do Líbano
em relação ao Rio Litani “e além”, no dizer atualizado de Netanyahu.
Existem três semelhanças fundamentais nesse "destino
histórico": 1. A Geopolítica da Água (Hidropolítica)
Assim como o sul do Líbano tem o Litani, o Golã é a
principal fonte de água doce para Israel. Controlar Golã é dominar as nascentes
do Rio Jordão e o Mar da Galileia (Lago Kinneret). Quem tem o Golã, controla a
torneira de Israel.
O Rio Litani, ao Sul do Líbano, a 30 quilômetro da
fronteira Norte com Israel, despeja milhões de metros cúbicos de água doce no
Mediterrâneo. Para um projeto de expansão territorial e agrícola (como o dos
colonatos), capturar essa água é a diferença entre um deserto e uma região
produtiva.
A Justificativa da "Segurança” tornou a ocupação em do
Golã em anexação. Israel ocupou a área em 1967 alegando que a Síria usava o
planalto para bombardear comunidades israelenses abaixo. Em 1981, anexou o
território unilateralmente.
A justificativa no Litani é o Hezbollah. Ao destruir
vilarejos, explodir pontes e expandir a zona para além do Litani, o movimento
migra de uma "operação militar" para uma ocupação territorial de
longo prazo, repetindo o roteiro do Golã.
Para consolidar o controle da água e da terra, a estratégia
costuma ser o despovoamento permanente. No Golã, a grande maioria da população
síria foi expulsa ou fugiu em 1967. No sul do Líbano, as ordens de evacuação em
massa e a destruição impiedosa e continuada da infraestrutura tornam a volta
dos civis libaneses quase impossível.
Sem habitantes locais, a área fica livre para a exploração
de recursos e, eventualmente, para a instalação de postos avançados de colonização.
Tanto a Síria (no Golã) quanto o Líbano (no Sul) acabam
perdendo soberania sobre seus recursos naturais mais valiosos sob o argumento
da "necessidade militar defensiva do Estado de Israel". No final das
contas, o mapa do "Grande Israel" se desenha onde a água corre e onde
a topografia oferece vantagem estratégica.
Para as grandes potências, a soberania do Líbano ou a água
do Litani são "problemas locais", enquanto o comércio global é
uma questão de sobrevivência.
As artérias do capital, o Estreito de Ormuz (fertilizantes,
gás, petróleo) e o Canal de Suez/Bab el-Mandeb (logística global) são
os pontos onde o mundo "sente dor" no bolso. Se o fluxo de navios para
a inflação explode em Nova York, Londres e Pequim...
O "Sacrifício" do Líbano. Enquanto Israel
mantém esse aspecto da guerra contido como conflito em terra firme (mesmo
expandindo para o Líbano), o impacto sistêmico na economia global é
administrável. Por isso, a tolerância implícita: "façam o que precisarem
em terra, desde que as rotas marítimas continuem abertas".
Muitas vezes, a liberdade que Israel recebe para redesenhar
suas fronteiras ao Norte é o preço que o Ocidente paga para que Israel não
escale um ataque direto às infraestruturas iranianas, o que resultaria no fechamento
de vez o Estreito de Ormuz pelo Irã.
No fim das contas, a geografia dos recursos (água
e terra no Líbano) está sendo devorada enquanto a geografia do fluxo (canais
e estreitos) é protegida. O Líbano, fragilizado e sem peso econômico global,
acaba sendo o elo mais fraco dessa corrente.
O Irã não é apenas um "eixo de resistência"; é também
um Estado com uma economia que precisa respirar, e sabe que travar o Estreito
de Ormuz é um "botão de autodestruição" econômica para si mesmo.
O Irã é um dos maiores importadores mundiais de trigo e
milho. Se fecha o tráfego marítimo para punir Israel ou o Ocidente, cortam o
próprio suprimento de comida. A inflação interna já é altíssima; um bloqueio poderia
ser estopim para revoltas domésticas incontroláveis.
O regime iraniano sobrevive da venda de petróleo e gás
(principalmente para a China). O caos no Golfo Pérsico interrompe o fluxo de
caixa que mantém o governo e as próprias milícias que financiam no exterior
(Hezbollah, Houthis).
Isso explica porque a Comunidade Internacional se sente
"confortável" em deixar Israel avançar sobre o Rio Litani e
manter ocupadas Colinas de Golã:
Avaliam que o Irã vai gritar, mas dificilmente “suicidará”
sua economia travando Ormuz por causa da água do Líbano ou a autonomia
Palestina em Gaza e na Cisjordânia.
Netanyahu lidera o projeto político-militar sionista e aproveita
o "equilíbrio de medos" para consolidar o Projeto Grande Israel na
prática, sabendo que a prioridade global é o preço do barril e a logística de
grãos, e não o desenho das fronteiras terrestres libanesas, sírias, palestinas.
No fim, palestino e libaneses acabam sendo a moeda de troca na
moita. Israel expande seu domínio hídrico e territorial, o Irã mantém suas
rotas de exportação abertas para não colapsar internamente, e o mundo finge que
não vê as anexações de fato porque o fluxo continua operando nos canais de Suez
e Ormuz.
Se os impérios antigos (Roma, Otomanos) conquistavam por
marcha territorial e os coloniais (século XIX) por extração de matéria-prima,
o neoimperialismo opera por controle de fluxos e pontos nodais.
A lógica atual terceiriza a fronteira. O
"império" moderno (liderado pelos EUA e grandes blocos econômicos)
não precisa administrar o território libanês ou sírio diretamente. Ele permite
que aliados regionais fortes, como Israel, façam a "limpeza" e o
controle geográfico (água, terra, zonas de exclusão), desde que os canais
globais (Suez, Ormuz) permaneçam abertos para o capital.
O neoimperialismo sustenta-se na capacidade de decidir quem
morre no escuro (o Líbano, longe das câmeras e do interesse econômico) e quem é
protegido (as rotas de gás, petróleo, grãos e fertilizantes que alimentam o
sistema). É um imperialismo seletivo, das commodities.
Impõe-se a sobrevivência pelo pragmatismo. Mesmo o Irã, "adversário
do sistema” está preso a ele. E sustentam o neoimperialismo porque dependem da
mesma infraestrutura global para importar comida e exportar energia. Ninguém
quer derrubar o tabuleiro; todos querem apenas uma fatia maior dele.
Não confunda judaísmo com sionismo, mas tenha em mente que a ideologia dominante em uma sociedade é a ideologia da classe que domina essa sociedade.
O Sionismo Político é um movimento nacionalista moderno, surgido no final do século XIX, enquanto o Judaísmo é uma tradição religiosa e ética milenar.
Muitos judeus (incluindo grupos ortodoxos e pensadores humanistas) criticam o projeto do Grande Israel (Eretz Yisrael Hashlema), argumentando que a ocupação territorial e o expansionismo militar entram em conflito com os valores espirituais e morais da fé judaica.
Separar o projeto de Estado da identidade
religiosa é o que permite entender por que essa expansão sobre o Litani ou
o Golã é uma estratégia de poder político, e não um consenso teológico.
Para entender o projeto político do Grande Israel é
essencial olhar para a ala revisionista do sionismo, liderada
por Ze'ev Jabotinsky, que deu origem ao atual partido Likud (de
Netanyahu).
Jabotinsky, o fundador ideológico do projeto, escreveu The
Iron Wall", O Muro de Ferro, em 1923. No ensaio publicado antes da existência de um
estado de judeus, ele defendia que os árabes nunca aceitariam a partilha da Palestina
voluntariamente. Portanto, a colonização judaica deveria ocorrer sob a proteção
de uma força armada inabalável (o muro de ferro) até que os árabes desistissem
de resistir.
O projeto original do "Revisionist Zionism" reivindicava
ambas as margens do Rio Jordão (incluindo a atual Jordânia). O Rompimento com o
Mandato Britânico tem raízes no White Paper de 1939, a imposição da
a limitação à imigração judaica para a Palestina, com o objetivo de acalmar as
revoltas árabes.
Menachem Begin, que viria a ser primeiro-ministro de Israel,
liderava a organização paramilitar Irgun, quando deflagrou "The
Revolt" contra o Mandato Britânico em 1944.
Para os revisionistas, os britânicos se tornaram um
obstáculo ao "destino histórico" de um estado judeu em toda a
extensão da Palestina mandatária. Eles usaram táticas de guerrilha e atentados
terroristas (como o do King David Hotel) para forçar a saída
britânica.
Inicialmente, nem todos os judeus apoiaram essa via
política que incorporava o terrorismo e o expansionismo como objetivo. Grupos
de judeus ultraortodoxos tornaram-se oposicionistas à existência do Estado de
Israel sustentando que um Estado judeu soberano como o proposto pelo sionismo
político seria uma violação de juramentos bíblicos. Os haredim se articulavam em
torno do "Haredi Anti-Zionism", o Antissionismo Haredi, propagando
que um Estado de Israel só deveria ser estabelecido com a vinda do Messias.
Grupos como Neturei Karta e Satmar Hasidism
argumentam que a criação de um estado judeu por mãos humanas e força militar é
uma rebelião contra a vontade divina.
O destacado intelectual religioso israelense Yeshayahu
Leibowitz, tornou-se um crítico ferrenho crítico da ocupação de 1967,
chamando-a de "messianismo político" que corromperia o judaísmo.
Intelectuais judeus como Hannah Arendt (que
cobriu o julgamento de Eichmann) e, mais recentemente, Norman Finkelstein e Gideon
Levy, alertaram para o perigo de um povo traumatizado repetir padrões de
opressão contra outros para garantir sua própria "segurança". Todos argumentaram
que o "nunca mais" deveria ser universal, e não apenas para um grupo.
No contexto atual (especialmente em Gaza após outubro de
2023), a África do Sul levou Israel ao Tribunal Internacional de Justiça
(CIJ) acusando-o de genocídio. O argumento é que a destruição sistemática
de hospitais, escolas, sistemas de água e o bloqueio de ajuda criam condições
de vida destinadas a destruir o grupo físico, parcial ou totalmente.
Ao sugerir que os palestinos podem "sobreviver em
qualquer lugar" (Egito, Jordânia, América Latina), o projeto sionista nega
o direito de autodeterminação e o vínculo histórico deles com a terra. É a
ideia de que "são apenas árabes", e como há muitos países árabes,
eles poderiam ser absorvidos por outros, deixando a Palestina livre para o
"povo escolhido".
O que vemos em Gaza e no sul do Líbano hoje é a criação
de condições inviáveis de vida. Destruir hospitais, escolas e o acesso à
água (como discutimos nos casos de Gola e Litani) não é apenas um ato de
guerra; é uma mensagem: "Aqui não há futuro, saiam". É o incentivo
à migração sob bombardeio.
Antes da "Solução Final" (o extermínio), o regime
nazista chegou a considerar o Plano Madagascar, que pretendia expulsar e
transferir todos os judeus da Europa para aquela ilha na África.
A lógica era a mesma: "eles podem existir, desde que
não aqui". A substituição de uma população por outra através da
transferência forçada é um crime de guerra sob o estatuto moderno, mas é uma
ferramenta antiga de impérios e nacionalismos extremos.
Para o projeto do Grande Israel, a terra (e sua água) é um
ativo estratégico. A população nativa é vista como um "obstáculo
demográfico". Se eles podem ser "diluídos" em outros países, o
"problema" desaparece sem a necessidade formal de um extermínio, mas
com o mesmo resultado prático: o desaparecimento de uma cultura e de um povo de
seu território de origem.
Essa visão de que "o outro" é deslocável e
irrelevante para a paisagem é o que sustenta a expansão das fronteiras desde
1948.
No fim das contas, a estratégia de "dispersão" e
"inviabilização da vida" no território (seja no Líbano, na Palestina,
na Síria) conta com o tempo e a fadiga da comunidade
internacional encostada à parede pela geopolítica bruta do fato
consumado.
Enquanto o mundo discute a moralidade das ações ou monitora
os movimentos em tempo real, as escavadeiras avançam, as vilas são demolidas,
as pontes e estradas explodidas, as fontes de água cercadas, as pessoas mortas
às centenas, aos milhares...
A história mostra que o que hoje é um "escândalo
internacional", em dez ou vinte anos vira uma "questão complexa e
consolidada". Foi assim com as Colinas de Golã e com os grandes
blocos de colonatos na Cisjordânia.
Ao destruir a infraestrutura básica (escolas, hospitais,
redes de água), cria-se um cenário onde "voltar" não é mais uma opção
viável para as famílias. A migração para o Paraguai, Egito ou Europa deixa de
ser uma escolha política e vira uma questão de sobrevivência biológica.
Para o projeto do Grande Israel, a opinião pública
global é um ruído administrável, desde que o controle físico da terra e da água
seja garantido.