As manifestações contra as políticas de imigração do governo Trump se espalharam por todos os Estados Unidos na última semana de janeiro de 2026, culminando em uma convocação de paralisação geral em diversas metrópoles. O cenário é de mobilização intensa, especialmente em estados com grandes populações imigrantes e lideranças democratas que resistem à cooperação com o governo federal. O conjunto da ação repressiva da milícia da imigração expõe uma mudança estratégica no comando das operações de campo que se aproxima das organizações paramilitares capazes de impor condutas aos cidadãos e ter papel nas eleições de meio de mandato em 3 de novembro, quando Trump teme perder a maioria republicana nas casas legislativas e inviabilizar projetos de terceiro mandato.
Foto: Rolling Stone. Nova Iorque realizou uma das maiores manifestações contra a deportação trumpista.
“Fora ICE”, exigiram os manifestantes na ruas dem pelo menos 25 grandes cidades.
Na Califórnia - em Los Angeles e San Francisco -, milhares de pessoas foram às ruas em protestos marcados pela presença de figuras públicas e ativistas. Em Los Angeles, a polícia chegou a usar bombas de efeito moral para dispersar manifestantes que cercavam prédios federais. Em Illinois, a cidade de Chicago registrou marchas massivas exigindo que a polícia local impeça as batidas do ICE. Há relatos de cidadãos formando "cordões humanos" para bloquear veículos de transporte de detidos. Em Nova York, as manifestações se concentraram na Foley Square e em frente a centros de processamento de imigrantes denunciando o aumento da militarização das agências de imigração. No Texas, um estado majoritariamente republicano, Houston e El Paso tiveram protestos sob o lema "Nenhum filho de Deus é ilegal" e o governador Greg Abbott mobilizou a Guarda Nacional para reforçar o policiamento preventivo nessas áreas.
A ocupação federal de Mineápolis, o assassinato de Renê Nicole Gold, do enfermeiro Alex Pretti, a prisão de criança que voltava sozinha da escola e a detenção do jornalistas Don Lemon e Georgia Fort intensificaram manifestações contra a ação miliciana do ICE, acelerando marchas em centros urbanos e até áreas rurais. também porque as populaões das outras cidades temem intervenções semelhantes. os jornalistas foram presos enquanto cobriam batidas do ICE em bairros residenciais. O governo alegou que eles estavam "obstruindo operações federais". Um juiz distrital em Minnesota emitiu liminar ordenando a soltura imediata dos profissionais, afirmando que o governo estava usando táticas de intimidação para impedir que o público visse as condições das detenções domiciliares.
Organizações de direitos civis convocaram uma paralisação nacional a partir da sexta-feira 30 de janeiro visando parar setores de serviços e construção para pressionar o governo a retirar os agentes federais das ruas. Trump tem rotulado os milhares de manifestantes como "agitadores profissionais" e pressiona o Congresso para aprovar leis que criminalizem as "cidades santuário", alegando que a recusa de cooperação das autoridades locais está gerando o caos.
A situação permanece volátil, a ponto de a ONU ter se manifestado por uma "desescalada" na repressão aos protestos enquanto novas marchas são planejadas para este fim de semana.
Mineápolis é ainda o epicentro do conflito entre o governo federal e as chamadas "cidades santuário", uma crise institucional sem precedentes. Na prática, Mineapolis vive uma ocupação. O governo Trump enviou cerca de 1.500 agentes federais (oficiais do ICE e da Patrulha de Fronteira) para uma cidade que possui apenas 600 policiais municipais em serviço ativo. O prefeito Jacob Frey classificou a medida como uma "invasão política" destinada a punir cidades que se recusaram a colaborar com as deportações em massa. A prefeitura e o governo do Minnesota processam judicialmente a administração federal, alegando que o volume de agentes federais nas ruas subordinou a autoridade local e paralisou o policiamento comunitário.
Assim também, Trump promoveu a substituição de quadros de carreira pública por nomeações. Oficiais de carreira do ICE que questionaram a legalidade de prender crianças em Mineapolis foram substituídos por comandantes alinhados ideologicamente com a Casa Branca. Para compensar a resistência interna em agências federais, o governo expandiu contratos com empresas de segurança privada para realizar o transporte e a custódia armada dos detidos. Embora não tenham poder de prisão legal, esses "mercenários" foram vistos operando perímetros de segurança, gerando críticas sobre o uso de força paramilitar sem prestação de contas pública. Enquanto o governo federal inundava a cidade com agentes, a polícia municipal de Mineapolis enfrenta uma redução drástica de sua eficácia:. Os 600 policiais locais foram orientados pela prefeitura a não auxiliar o ICE, o que criou um clima de "guerra fria" nas ruas, onde a polícia municipal e os agentes federais frequentemente entram em conflito sobre jurisdição, deixando crimes comuns em segundo plano. O caso de Mineapolis permanece nos tribunais superiores, sendo usado como o principal argumento para definir se o governo federal pode, de fato, "substituir" a força policial de uma cidade que se opõe às suas políticas migratórias.
As idas e vindas da política de imigração do segundo mandato de Donald Trump (2025-2026) estão marcadas por uma escalada agressiva na fiscalização interna e na expansão recorde da infraestrutura de detenção. Diferente do mandato anterior, focado na fronteira, o governo atual intensificou a detenção de famílias dentro do país. O governo reabriu e adaptou centros no Texas (como Karnes e Dilley) para prender pais e filhos juntos, revertendo a política da era Biden. Entre janeiro e outubro de 2025, o ICE registrou a entrada de cerca de 3.800 menores em centros de detenção familiar, incluindo crianças de um e dois anos. Embora o Acordo Flores* limite o tempo de detenção de menores, a administração tem usado brechas para manter famílias custodiadas enquanto promovem a deportação acelerada. De outra parte, a condução da política migratória tornou-se um negócio multibilionário para empresas privadas, que operam grande parte do sistema. Companhias como o GEO Group e a CoreCivic receberam centenas de milhões de dólares em novos contratos para gerir o aumento da população detida, que saltou de 40 mil para mais de 66 mil pessoas em um ano.
Empresas como a Palantir (análise de dados para batidas policiais) e a Fisher Sand & Gravel (construção do muro) lucraram bilhões com o orçamento de imigração.
A justiça autorizou o uso de tropas para auxiliar agentes federais em operações de fiscalização.
Há uma fila de cerca de 200.000 inscritos, candidatos ao bônus de R$ 50 mil para reforçar a tropa de campo do ICE. O governo tem testado os limites constitucionais através de memorandos internos e ordens executivas. O ICE recebeu orientações para entrar em residências de imigrantes sem mandado judicial, baseando-se apenas em documentos administrativos da própria agência.
Agentes foram autorizados a realizar prisões em locais anteriormente evitados, como igrejas e escolas. Juízes federais, especialmente em Minnesota, relataram que o governo violou ordens judiciais dezenas de vezes só em janeiro de 2026, para manter o ritmo das detenções.
O governo afirma ter deportado mais de 600.000 pessoas, enquanto outras 1,9 milhão teriam realizado a "autodeportação" sob pressão das novas medidas.
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* O Acordo Flores (Flores Settlement Agreement) é uma decisão judicial histórica de 1997 que estabelece padrões nacionais para o tratamento, detenção e liberação de menores imigrantes sob custódia do governo federal dos Estados Unidos. O acordo surgiu de uma ação coletiva iniciada em 1985 (caso Flores v. Reno) após denúncias de condições desumanas em centros de detenção.
Suas principais diretrizes incluem:
Limite de Detenção: Proíbe que autoridades de imigração mantenham crianças detidas por mais de 20 dias, mesmo quando acompanhadas pelos pais.
Liberação Prioritária: O governo deve liberar menores "sem demora desnecessária" para pais, parentes adultos ou programas licenciados.
Condições de Custódia: Exige que as crianças sejam mantidas em instalações seguras e sanitárias, adequadas à sua idade e vulnerabilidade, com acesso a água, comida, assistência médica e educação.
Ambiente Menos Restritivo: Se a detenção for necessária, ela deve ocorrer no ambiente "menos restritivo possível", geralmente em instalações licenciadas por entidades de bem-estar infantil.
Contexto Atual (2026)
Em janeiro de 2026, o Acordo Flores permanece no centro de debates jurídicos e políticos:
Tentativas de Encerramento: O governo atual busca rescindir o acordo, argumentando que mudanças na legislação (como o One Big Beautiful Bill Act de julho de 2025, que destinou US$ 45 bilhões para centros de detenção familiar) invalidam a necessidade do controle judicial.
Disputa Judicial: O caso está sendo analisado pela Corte de Apelações do Nono Circuito (processo Flores v. Bondi), que decidirá se a administração pode substituir o acordo por novas regulamentações federais.
Impacto das Políticas: Enquanto o acordo estiver em vigor, ele impede a detenção por tempo indefinido de famílias com crianças, o que críticos alegam dificultar o controle da imigração, enquanto defensores veem o acordo como uma salvaguarda essencial contra abusos aos direitos humanos.