03 abril, 2026

Um infeliz vazio, profundo e tenso

A estas horas, há quase dois milênios, o corpo de Jesus acabara de ser depositado no sepulcro de José de Arimatéia, enquanto o sol se punha e o descanso do Shabat começava. No palácio, a articulação de Caifás não parava: ele convencia Pilatos de que o túmulo não podia ficar desprotegido, exigindo do prefeito da ocupação romana que fosse selada a entrada com o lacre oficial do império. O nazareno, morto pela escolha do povo em favor de Barrabás, deveria permanecer sob o peso da pedra, silenciando o que a cúpula do Sinédrio chamava de impostura. 

        Ilustrações: Nana Banana (via Gemini/Google).

Por uma ironia que atravessa os séculos, o cenário de hoje em Jerusalém ecoa aquele isolamento. Sob ordens de líderes atuais e em meio a tensões geopolíticas, as portas do Santo Sepulcro viram-se novamente cerradas, confinando líderes e afastando a multidão de seguidores de Jesus. O que ocorreu no Domingo de Ramos repete-se agora: o acesso ao sagrado é mediado pelo controle do Estado, recriando a atmosfera de vulnerabilidade e portas trancadas que marcou os primeiros seguidores de Jesus. Entre o selo de Pilatos e as restrições modernas da polícia de Netanyahu, o Sepulcro permanece como o epicentro onde a fé e o poder político continuam a se tensionar diretamente."

O sol se punha e o descanso do Shabat começava sob uma tensão invisível. No palácio, a articulação de Caifás vencera e convencera Pilatos de que selar e vigiar o túmulo era essencial  para o projeto do Sinédrio e do Império Romano: silenciar de vez o nazareno, ainda que já morto o homem. Naquela noite, deveria restar apenas o silêncio da tumba vigiada.

Por uma ironia que atravessa os séculos, o cenário da Páscoa em 2026 em Jerusalém ecoa aquele enclausuramento. Sob ordens de líderes locais atuais e em meio a tensões geopolíticas, as portas do Santo Sepulcro viram-se novamente cerradas para a multidão já no Domingo de Ramos, cena que se repetiu nesta sexta-feira, quando o acesso ao sagrado foi mediado pelo controle estatal e pela segurança armada, confinando a liturgia e afastando o povo. 

Entre o lacre de cera e cordas de Pilatos e as grades modernas, o Sepulcro permanece como o epicentro onde a fé e o poder político continuam a se tensionar, circunstanciados por portas que não se abrem.

No jardim de José de Arimatéia, pesada pedra circular já rolada, encerrava o corpo de Jesus na frieza da rocha, o romano impondo a autoridade de Pilatos, advertindo que qualquer violação seria um crime contra o Império, tranqulizada a cúpula do Sinédrio, descansava crente de ter sufocado a 'impostura', a pedra selada tornava-se o símbolo máximo do aparente triunfo da morte.

Hoje em Jerusalém, o Santo Sepulcro, herdeiro daquele local, encontra-se novamente sob o peso de decisões políticas e tensões de segurança. As portas cerradas para a multidão e a ausência do povo que ali esteve por quase dois milênios na Sexta-Feira da Paixão recuperam dramaticamente as tensões daquele isolamento original. Entre a pedra de outrora e as grades de agora, o silêncio continua sendo a resposta do poder temporal diante da inquietude da fé. (Ah, sim, há uma guerra  em andamento, reiniciada por  Netanyahu e Trump). 

Texto: ABC em colaboração com Gemini (IA da Google).

#SextaFeiradaPaixão #SantoSepulcro #Jesus #Caifaz #Pilatos #Barrabás #JosédeArimatéia

02 abril, 2026

Os 33 dias da guerra de Trump

 O discurso de Donald Trump, realizado na noite de quarta-feira (1º de abril de 2026), foi novamente associado à expressão "a montanha pariu um rato" por diversos analistas. Embora tenha sido alardeado como um pronunciamento decisivo em horário nobre, a percepção geral foi de que ele entregou poucas novidades práticas sobre a guerra que EUA e Israel reiniciaram contra o Irã. No teatro de operações de Trump, a montanha de propaganda pariu um rato logístico, e o navio mais caro da história encerrou seu primeiro mês de guerra buscando o refúgio de um estaleiro na Croácia, longe dos holofotes e dos mísseis iranianos.

                         (Zvonimir Barisin/PIXSELL/Divulgação via Xinhua)

Trump declarou que os objetivos militares da operação "Epic Fury" estão "perto da conclusão" e que as forças dos EUA obtiveram vitórias "esmagadoras", alegando que a marinha e a força aérea iranianas foram destruídas.

Apesar da expectativa de uma estratégia clara de saída ou de escalada definitiva, o presidente repetiu afirmações de semanas anteriores e não ofereceu um cronograma concreto para o fim das hostilidades, mencionando apenas um período vago de "duas a três semanas". A frustração de parte da mídia reside no fato de o discurso ter focado mais em autoelogios do que em dados objetivos, prazos ou soluções concretas. O discurso ocorreu sob pressão interna devido à alta dos combustíveis nos EUA, com a gasolina ultrapassando os US$ 4 por galão em decorrência do bloqueio parcial do Estreito de Ormuz. Trump citou a intervenção na Venezuela como um modelo de sucesso de governo "amigável" estabelecido após operações rápidas, sugerindo um objetivo semelhante para o Irã.

A expressão "a montanha pariu um rato" já fora amplamente utilizada em julho de 2025, no clímax do episódio dos tarifaços, para descrever a frustração ou o alívio em relação a medidas anunciadas pela Casa Branca, sob a gestão de Donald Trump. O termo indica uma grande expectativa ou ameaça que resulta em algo insignificante. Vem de uma fábula atribuída a Esopo ou Horácio, na qual uma montanha que gemia de dor assusta a todos, mas acaba dando à luz apenas um pequeno roedor. Karl Marx utiliza a imagem em O 18 Brumário de Luís Bonaparte para criticar a falta de energia revolucionária da "Montanha" (facção democrático-republicana no parlamento francês) após o 13 de junho de 1849. Ele aponta que, depois de muito barulho e ameaças, o resultado das ações foi insignificante, revelando a impotência da burguesia e da pequena burguesia republicana de parar o golpe de estado conservador.

Escapa a muitos, principalmente à mídia diária a serviço das causas de Donald Trump e Benjamin Netanyahu, que o USS Gerald R. Ford já completou sua passagem pela ilha de Creta. O porta-aviões chegou à Baía de Souda no dia 23 de março de 2026 para reparos e reabastecimento após um incêndio a bordo ocorrido durante operações no Mar Vermelho. De acordo com as atualizações recentes, o USS Gerald R. Ford ancorou em Split, na Croácia, no dia 28 de março de 2026, para dar continuidade ao ciclo de manutenção. O maior navio do mundo deixara a zona de conflito com o Irã para reparos, sendo temporariamente substituído pelo USS George H.W. Bush. O fato de o Pentágono ter deslocado o H.W. Bush para substituí-lo na linha de frente contra o Irã prova que o Ford não tinha condições de manter a prontidão de combate.

Já o USNS Robert E. Peary (T-AKE-5), um navio de carga seca e munição da classe Lewis and Clark, que operava no Caribe, cruzou o Atlântico com suprimentos e munições para o grupo de ataque do USS Gerald R. Ford, que chegara a Creta em 23 de março de 2026, atravessou o Estreito de Gibraltar e seguiu pelo Mar Mediterrâneo, conforme os registros de movimentação naval do final de março de 2026, com destino ao Estaleiro de Souda Bay, para reencontrar o porta-aviões Gerald Ford, que necessitava de reabastecimento crítico de munições e provisões após o desgaste das operações no Mar Vermelho e um incêndio a bordo.

Após o encontro logístico em Creta, o grupo naval não permaneceu no estaleiro. No dia 28 de março de 2026, o porta-aviões ancorou em Split, na Croácia, indicando que a fase de reposição de munições trazida pelo Robert fora concluída ou integrada ao deslocamento para o Mar Adriático.

A ida do USS Gerald R. Ford para Split confirmou que o incidente foi muito mais sério do que uma simples limpeza de fuligem nas lavanderias.

Embora o comando naval tenha inicialmente minimizado o evento, a movimentação estratégica é indicativa de danos estruturais e técnicos significativos nos sistemas elétricos.

O incêndio teria atingido cabeamentos críticos de energia do navio totalmente elétrico e dependente de novas tecnologias como as catapultas eletromagnéticas EMALS que qualquer curto-circuito de grande escala compromete a capacidade de lançar aeronaves.

A parada em Souda Bay (Creta) teria servido para um reabastecimento de emergência trazido pelo cargueiro Robert, mas o Estaleiro Split, na Croácia, oferece infraestrutura para reparos técnicos que não podem ser feitos em alto-mar ou em portos puramente logísticos.

Além dos danos materiais, o navio vinha de uma sequência exaustiva (Venezuela e depois Mar Vermelho). A Croácia foi escolhida também como um "porto de liberdade" para evitar um colapso no moral da tropa após o susto do incêndio. Em suma, a "montanha" de fumaça nas lavanderias escondeu um "rato" de falha técnica que forçou o porta-aviões mais caro do mundo a sair de cena no momento mais tenso da guerra.

Como uma baleia carregando filhotes nas costas, o maior porta-aviões do mundo deixara o teatro de operações sem mísseis defensivos, nem condições operacionais da pista de pouso e sistema de lançamento de aeronaves. As fontes oficiais mantêm narrativa cautelosa, descrevendo o USS Gerald R. Ford como "totalmente capaz para a missão", embora a magnitude dos danos e a logística de reabastecimento sugiram uma vulnerabilidade maior do que a admitida.

Relatos iniciais da Marinha falavam em um controle rápido, mas fontes posteriores, incluindo o New York Times e o South China Morning Post, indicaram que o fogo na lavanderia durou entre 30 e 32 horas para ser totalmente extinto, mais de 200 marinheiros foram tratados por inalação de fumaça e intoxicação por monóxido de carbono, cerca de 600 beliches e 100 alojamentos foram destruídos ou seriamente danificados pela fumaça. A Marinha ainda precisou enviar mil colchões do futuro USS John F. Kennedy para recompor as áreas de descanso em Creta e na Croácia.

Um relatório do escritório de testes do Pentágono, citado pela Bloomberg, alertou que não há dados suficientes para garantir a eficácia do Ford em interceptar mísseis antinavio ou sustentar operações de combate contínuas devido a falhas crônicas nos elevadores de armas e radares.

Fontes oficiais como o U.S. 6th Fleet justificam a estadia na Croácia como "visita de porto e manutenção programada", mas o histórico de incêndio e falhas elétricas aponta para uma parada forçada de emergência.

A "baleia carregando filhotes" teria atingido o limite de sua prontidão após nove meses de mar. Escassez de mísseis defensivos, rede elétrica-eletrônica seriamente danificada teriam sido os fatores decisivos para a retirada preventiva do Mar Vermelho.

A chegada do USS George H.W. Bush ao teatro de operações permitiu que o Ford buscasse o estaleiro em Split, Croácia, para reparos que as equipes em Creta não conseguiram concluir.

Para uma avaliação das condições reais do Ford, são indicadores os testes de carga dos elevadores de armas. O sucesso da reposição da munição trazida pelo cargueiro Robert só será confirmado se o Ford realizar exercícios de movimentação de munição real no convés.

O Ciclo de Lançamento EMALS é outro referencial. Como o incêndio afetou a rede elétrica, a prova definitiva de que ele não é mais uma baleia a cuidar dos filhotes será o lançamento bem-sucedido de uma esquadrilha completa de F-18 ou F-35.

Se o USS George H.W. Bush começar a se deslocar para o Mar Arábico), é sinal de que o Ford assumirá novamente a guarda no Mediterrâneo Oriental ou Mar Vermelho.

Ao alternar entre ameaças de destruição total do Irã e anúncios de que as "metas estão quase batidas" ou que "conversas produtivas" estariam ocorrendo, Trump manteve o foco da mídia na política externa, enquanto o USS Gerald R. Ford era discretamente retirado para a Croácia.

As falas controversas de Donald Trump, conforme a análise de diversos observadores, aparecem quase sempre como tática de "cortina de fumaça":

Por exemplo, enquanto o Pentágono ainda insistia na narrativa do "incêndio na lavanderia" do maior porta-aviões do mundo, Trump dava declarações explosivas em Miami em 28 de março, afirmando que o navio fora atacado por um enxame iraniano de "17 direções" e que a tripulação "correu para salvar a vida", como a querer sensibilizar votos pelo orçamento militar solicitado a Congresso.

Fontes indicam que o Ford enfrentava falhas críticas não apenas elétricas, mas também no sistema de esgoto e nos elevadores de armas, o que, somado ao gasto de mísseis defensivos, o deixara vulnerável.

O discurso de vitória de 1º de abril serviu para esconder a saída do navio de cena sem admitir que ele precisou de reparos estruturais urgentes para voltar a ser operacional.

O USNS Robert E. Peary seguiu para a região de Creta para tentar mitigar o desfalque de munição, mas a ida final para o estaleiro em Split confirmou que o problema ia além da logística de reposição.

Trump preferiu posar de tolo no dia dos bobos a perder mais pontos junto ao eleitorado e na avaliação do governo que está próxima de péssima:

A análise de que o discurso de 1º de abril serviu como uma "saída estratégica" para evitar o desgaste político faz todo sentido no cenário atual de Washington.

Com a popularidade de Donald Trump oscilando em níveis críticos e a economia interna sofrendo com o preço dos combustíveis, admitir que o maior porta-aviões do mundo estava avariado e vulnerável seria um golpe fatal na imagem de "invencibilidade" que ele projeta, essencial para o front interno. Na batalha pelo Orçamento de Guerra no Congresso a situação é também de paralisia e queda de braço com uma auditoria parlamentar sobre as falhas crônicas do porta-aviões Ford.

O governo Trump solicitou um pacote suplementar de emergência (estimado em US$ 100 bilhões) para sustentar as operações contra o Irã e a manutenção da frota, mas enfrenta forte resistência. Parlamentares da oposição e até republicanos moderados questionam por que o USS Gerald R. Ford (que custou US$ 13 bilhões) precisou de um cargueiro vindo do Haiti (USNS Robert E. Peary) para uma reposição básica e agora está parado na Croácia.

Enquanto o dinheiro não é liberado, o Pentágono está "canibalizando" orçamentos de outras áreas para manter o USS George H.W. Bush operando no Mar Vermelho e recompor o USS Gerald Ford.

Trump também voltou a disparar a metralhadora giratória, seu estilo característico de pressão, refletindo sua frustração com os aliados europeus. Acusa os países da OTAN de deixarem os EUA "segurarem o piano" sozinhos no Oriente Médio.

Ao dizer que a aliança é um “tigre de papel”, sugere que, sem a tecnologia e o dinheiro americano, a Europa não teria defesa real, apesar do maioral estar em reparos em estaleiro europeu. Críticos apontam que essa retórica enfraquece a coesão ocidental e serve aos interesses de Vladimir Putin. Ao desestabilizar a confiança na OTAN, Trump abre espaço para uma influência russa maior na periferia da Europa, especialmente enquanto o foco militar americano está drenado pelo conflito com o Irã.

Ao posar de vitorioso em um discurso vago no dia 1º de abril, Trump tentou transformar uma retirada técnica (devido aos danos no Ford) em uma "conclusão de objetivos". Para o eleitor médio, a ideia de que a "guerra está acabando" é mais palatável do que a realidade de um porta-aviões bilionário com sistemas elétricos derretidos por um incêndio interno. o preço do barril de petróleo oscilando entre 100 e 120 dólares, as ações das petroleiras disparando feito foguete rumo a Lua.

A síntese necessária não é conclusiva

Dados de rastreamento satelital e inteligência de fontes abertas (OSINT) desmentem a narrativa da Casa Branca. Quando o Presidente Trump falava em 'objetivos concluídos', imagens de radar mostravam o colosso de 100 mil toneladas, o USS Gerald R. Ford, imóvel no estaleiro de Split, cercado por guindastes de reparo técnico, enquanto o cargueiro Robert E. Peary descarregava mísseis defensivos que o porta-aviões já não possuía em seus silos."

A Ilusão de Potência: O porta-aviões de 13 bilhões de dólares, após um incêndio de 30 horas no Teatro de Operações de Ormuz precisa ser socorrido em Creta e na Croácia por um cargueiro vindo do Caribe para não ficar desarmado.

A Cortina de Fumaça: Como o governo usou o "Dia da Mentira" para transformar uma retirada estratégica por danos elétricos em uma "vitória estratégica" contra o Irã, poupando a popularidade de Trump.

A Geopolítica da Vulnerabilidade: Enquanto o Ford se recupera na Croácia e a OTAN é fustigada pela retórica presidencial, o tabuleiro global observa o custo real de manter uma guerra sem o apoio dos aliados e com a tecnologia falhando.

O ponto nevrálgico que a mídia grande insiste em ignorar: a fragilidade operacional. O "apagão logístico" o que desmascara a narrativa política.

Janela de Vulnerabilidade: O USS Gerald R. Ford está operando com capacidade reduzida ou nula de ataque/defesa desde o incêndio em meados de março. Se contarmos a saída da zona de conflito até a chegada em Split (28/03), são pelo menos 15 dias fora de combate.

A Falha das EMALS: O sistema de catapultas eletromagnéticas, o "coração" do Ford, depende totalmente da rede elétrica que foi afetada pelo incêndio de 30 horas. Sem eletricidade estável, o navio não consegue lançar um único caça, tornando-se apenas um alvo flutuante gigante.

O "Vexame" do USNS Robert E. Peary: O fato de um porta-aviões de última geração precisar que um cargueiro logístico atravesse o Atlântico (vindo do Haiti) para repor munição básica em Creta revela que o estoque de prontidão para uma guerra real contra o Irã foi subestimado ou esgotado precocemente.

O Porto de Split como Prova: Navios de guerra em plena capacidade fazem reabastecimento no mar (UNREP). Se o Ford precisou atracar e desligar seus reatores para manutenção em um estaleiro na Croácia, é porque os danos internos impediam a navegação segura em zona de guerra.

Esse apanhado mostra que a "montanha" de tecnologia pariu um "rato" de manutenção. Enquanto Trump falava em "vitória esmagadora" no dia 1º de abril, o navio mais caro da história estava, na verdade, tentando religar os próprios disjuntores.

O "manifesto de carga" do USNS Robert E. Peary (T-AKE-5) revela a gravidade da situação. O que o cargueiro levou para o encontro em Souda Bay (Creta) e posteriormente acompanhou até a Croácia não foi apenas mantimento, mas o "oxigênio" de defesa que o Ford havia esgotado ou perdido no incêndio. Baseado nos relatórios de logística naval e nas necessidades de um grupo de ataque (Carrier Strike Group) em combate, os itens críticos do manifesto incluíam:

1. Defesa de Ponto (Escudo da "Baleia")

Mísseis RIM-162 ESSM (Evolved SeaSparrow): O Ford precisava recompor suas células de lançamento vertical (VLS). Sem esses mísseis, o porta-aviões não consegue interceptar mísseis de cruzeiro iranianos.

RIM-116 Rolling Airframe Missiles (RAM): Munição para os lançadores de curto alcance, essenciais contra enxames de drones (os mesmos citados por Trump no discurso de 17 ângulos).

2. Capacidade de Ataque (Os dentes do "Gavião")

Bombas de Precisão JDAM (Geralmente GBU-31/38): Reposição pesada para os caças F-35C e F-18 que estavam operando no limite de surtidas sobre o Irã.

Mísseis Ar-Ar AIM-9X Sidewinder: Cruciais para a superioridade aérea que Trump alegou ter estabelecido "esmagadoramente".

3. Logística de Emergência (O "Curativo" Técnico)

Kits de Cabeamento de Fibra Óptica e Conectores Militares: Específicos para os sistemas de controle das catapultas EMALS e do radar Dual Band, danificados pelo calor e pela fuligem ácida do incêndio de 30 horas.

Sistemas de Ventilação e Purificadores de Ar: Para substituir os equipamentos das lavanderias e alojamentos que ficaram impregnados com monóxido de carbono e resíduos químicos.

O USNS Robert E. Peary é um navio de 40 mil toneladas projetado para reabastecer a frota em movimentoO fato de o encontro ter ocorrido no porto de Souda Bay e a carga ter sido descarregada com o porta-aviões atracado prova que o USS Gerald R. Ford não tinha estabilidade elétrica ou segurança estrutural para realizar a manobra de reabastecimento no mar (Underway Replenishment).

Em termos navais, uma "baleia" que não consegue se alimentar enquanto nada está, para todos os efeitos, fora de combate.

Para o presente texto, chegaram-me dados de sensoriamento remoto e redes de satélites, fatos corroborados por evidências físicas. As fontes e observações satelitais observadas para embasar o registro dos 33 dias foram

1. Rastreamento por Satélite SAR (Radar de Abertura Sintética)

Diferente das fotos comuns, o radar penetra nuvens e fumaça. Satélites como os da constelação Sentinel-1 (ESA) e empresas privadas como ICEYE e Capella Space capturaram o momento exato em que o USS Gerald R. Ford diminuiu a velocidade no Mediterrâneo após o incêndio.

O Dado: A ausência de "esteira de água" significativa (wake) indicou que o navio navegava com propulsão reduzida ou apenas por motores auxiliares antes de chegar a Creta.

2. Monitoramento de Sinais AIS (Automatic Identification System)

Embora porta-aviões em guerra desliguem o transponder (fiquem "no escuro"), o USNS Robert E. Peary é um navio de apoio civil-militar (Military Sealift Command) e geralmente mantém o sinal ativo para segurança de navegação.

A Evidência: Plataformas como MarineTraffic e FleetMon registraram a rota do Robert E. Peary saindo do Haiti, cruzando Gibraltar sob escolta da fragata britânica HMS Richmond (F239) da OTAN e atracando em Souda Bay exatamente quando o Ford chegou. Essa "coincidência" cronológica prova o encontro logístico de emergência.

3. Imagens Ópticas de Alta Resolução (Maxar/Planet Labs) - Imagens de satélite de 30cm de resolução sobre o porto de Split (Croácia) em 28 de março mostram o Ford atracado.

Detalhe crucial, a presença de guindastes externos de grande porte e barcaças de suporte técnico ao lado da ilha (superestrutura) e das catapultas confirma que os reparos não eram internos (lavanderia), mas estruturais e nos sistemas de lançamento, algo que o manifesto de carga do Robert E. Peary (com cabos e peças técnicas) já sugeria.

4. Escolta da OTAN: A "Rede de Segurança"

A escolta do Robert E. Peary não foi apenas protocolar. Além da HMS Richmond, houve monitoramento por aeronaves P-8 Poseidon da Marinha dos EUA partindo de Sigonella (Itália).

A Narrativa: O fato de um navio de munição precisar de cobertura aérea e naval pesada no Mediterrâneo Ocidental indica que o Pentágono temia que o Irã ou seus aliados pudessem tentar cortar a linha de suprimentos da "baleia" ferida.

O USS Gerald R. Ford foi flagrado navegando no sentido Leste-Oeste, afastando-se do Irã em direção à Croácia, (com aviões no ar no mesmo rumo ao lado dele?) e o convés vazio ou estático.

1. O Convés "Morto" (Cold Deck)

Imagens de satélite da Maxar e fotos de reconhecimento capturadas no final de março de 2026 confirmam que o Ford estava operando com o convés paralisado.

O Detalhe: Nas fotos, os caças F-35C e F/A-18E Super Hornet aparecem estacionados nas bordas, presos por correntes, enquanto o centro do convés de voo está limpo. Isso indica que as catapultas EMALS (eletromagnéticas) estavam fora de serviço devido à falha elétrica pós-incêndio.

2. A "Escolta de Babá"

Os aviões "ao lado" do Ford na foto não decolaram dele. Pertencem ao USS George H.W. Bush em manobra de grupo de ataque - patrulha aérea de combate. Para evitar que a "baleia" (o Ford sem defesas) fosse atacada enquanto seguia para o Mediterrâneo em direção a Split,

O Vexame Técnico: Um porta-aviões de US$ 13 bilhões sendo escoltado por aviões de outro navio porque não consegue lançar os seus próprios é o maior indicativo de que ele era, naquele momento, um alvo passivo.

3. Estimativa de Aeronaves Operacionais

As análises satelitais em Split e Souda Bay mostraram cerca de 45 a 50 aeronaves no convés do Ford, mas em estado de "armazenamento". Muitas estavam cobertas por lonas térmicas, sugerindo que o sistema de ventilação dos hangares internos (afetado pelo monóxido de carbono do incêndio) ainda não estava seguro para a manutenção das turbinas e eletrônicos sensíveis.

Os "33 dias da guerra de Trump" terminaram com o navio-almirante da frota americana servindo apenas como uma pista de pouso flutuante desativada, cruzando o mar sob a proteção alheia, enquanto o USNS Robert E. Peary corria para entregar as peças de reposição que os discursos na Casa Branca fingiam não ser necessárias.

Isso configura o que chamam de "Mission Kill": o navio não foi afundado, mas foi neutralizado tecnicamente e retirado do teatro de operações.

Enquanto a Casa Branca escolhia o 1º de abril para encenar um desfecho vitorioso, as lentes satelitais revelavam a verdade nua: o USS Gerald R. Ford navegava solitário rumo ao Oeste, cruzando o Mediterrâneo não como um predador, mas como uma 'baleia' ferida. As fotos de reconhecimento mostram um convés estático, com suas catapultas bilionárias caladas pelo incêndio, dependendo de aviões de outros navios para sua própria proteção. Ao fundo, o rastro do cargueiro USNS Robert E. Peary simboliza a linha de vida que tentava, às pressas, devolver os dentes a um gigante desarmado. No teatro de operações de Trump, a montanha de propaganda pariu um rato logístico, e o navio mais caro da história encerrou seu primeiro mês de guerra buscando o refúgio de um estaleiro na Croácia, longe dos holofotes e dos mísseis iranianos.

01 abril, 2026

O Grande Israel se expande sobre o Líbano além do Rio Litani.

A questão da “zona de segurança até o Rio Litani (e além dele, conforme já verbalizado pelo Gabinete Netanyahu) em 2026 representa o maior redesenho da fronteira norte de Israel desde a invasão de 1982. Politicamente, essa área já não é tratada na prática por Israel apenas como um campo de batalha, mas como um espaço de exclusão soberana. Essa zona de segurança é, na prática, uma anexação funcional: o território continua sendo Líbano no mapa, mas todas as decisões sobre quem entra, quem sai e como a água é usada passam a ser de Israel. A ofensiva provocou o deslocamento forçado de uma massa populacional estimada em centenas de milhares de pessoas (estimativas apontam para mais de 1 milhão de deslocados internos no Líbano desde o início da fase atual).

Imagem gerada pela IA do Google
                                      
O Limite Político da Linha Azul, a fronteira reconhecida pela ONU após a retirada israelense em 2000, à luz dos fatos, é agora considerado "insuficiente" para a defesa alegada pelo projeto sionista. O Rio Litani, conforme a Resolução 1701 deveria ser a zona entre a fronteira e o rio livre de armas do Hezbollah desde 2006. Como isso falhou na visão de Israel, o governo Netanyahu passou da exigência diplomática para a ocupação física.

Em março de 2026, os bombardeios incessantes e diários levaram a expansão "Além do Litani". O anúncio de expandir a área para além do rio muda a natureza da operação e acrescenta profundidade estratégica às ações em curso. Ao cruzar o Litani, Israel busca controlar "as alturas dominantes", colinas e morros ao norte do rio. Politicamente, isso fragmenta o sul do Líbano do restante do país, criando um "tampão" que o Exército Libanês não consegue acessar.

A criação de "Zonas Mortas" tem sido a estratégia política de expansão e consolidação territorial do projeto sionista Grande Israel. Consiste em emitir ordens de evacuação permanentes, vilarejos inteiros são demolidos por bombardeios para que não haja infraestrutura que permita o retorno de civis ou militantes, transformando a região em uma terra de ninguém sob administração militar israelense.

Os objetivos políticos alegados para a criação da Zona de Segurança é permitir o retorno de 60.000 a 100.000 israelenses possam voltar para casa, criando uma zona de amortecimento tão profunda que nenhum míssil de curto alcance ou incursão terrestre possa atingi-los na fronteira norte do país, condições impostas ao governo libanês para um acordo de paz ou um tratado de segurança que neutralize o Hezbollah permanentemente.

O argumento de Israel, na prática, é a ocupação de 10% do território libanês e controle militar de seus recursos hídricos. Embora Israel ainda não admita que pretende anexar formalmente o território ao sul do Líbano (como fez com o Golã), a manutenção de tropas e a destruição da presença civil libanesa criam um "fato consumado".

Para os defensores do expansionismo político, o controle desta área é a realização da fronteira norte "natural" do estado israelense, protegendo as fontes de água que alimentam a região. A expansão da "zona de segurança" para além do Rio Litani impõe consequências diplomáticas críticas até então marcadas pela paralisia das instituições internacionais e pela fragilização extrema do Estado libanês.

O rompimento com a Resolução 1701 da ONU, o avanço físico de Israel ignorando a zona de amortecimento estabelecida em 2006, tornam a diplomacia da ONU obsoleta no terreno. A missão de paz (UNIFIL) enfrenta restrições severas de movimento e incidentes diretos com as forças israelenses.

O governo libanês, liderado pelo presidente Joseph Aoun, denunciou os planos como uma "punição coletiva". Há uma crise de soberania e risco de retorno à guerra civil, com evidente incapacidade do Exército Libanês de conter tanto Israel quanto o Hezbollah, e tensão sobre a iminência de nova fragmentação interna e instabilidade sectária no país.

A proibição do retorno de centenas de milhares de deslocados para o sul do Litani impede o acesso a terras agrícolas vitais, agravando a insegurança alimentar e destruindo o sustento de comunidades inteiras, produzindo tanto a inviabilidade econômica local como o atendimento por ações humanitárias.

Enquanto o governo de Beirute apela por soberania, à comunidade internacional que “até ontem” permanecia ausente e demostrava-se incapaz de impor sanções à Israel, focada em evitar uma escalada regional maior com o Irã que afete rotas comerciais globais. 

A ocupação passar à condição de anexação funcional, onde o território permanece libanês no mapa, mas os recursos e a segurança passam ao controle de fato de Israel, criam um cenário de "fatos consumados" difícil de reverter pela via diplomática tradicional. 

A morte de soldados das forças de paz da ONU (UNIFIL) moveu olhares, interesses de diversos países, que passaram a protestar energicamente contra as ações recentes de Israel no Líbano. Nas últimas horas, a UNFIL acusou a morte de três capacetes-azuis indonésios em dois incidentes distintos no sul do Líbano. Na segunda-feira (30 de março) dois soldados morreram quando uma explosão atribuída preliminarmente a uma bomba à beira da estrada destruiu o veículo do comboio em que estavam perto de Bani Hayyan. No domingo (29 de março), um outro soldado foi morto quando um projétil atingiu uma posição da ONU em Ett Taibe.

Israel e o Hezbollah trocaram acusações sobre a autoria dos ataques, a ONU abriu investigação formal, pipocaram protestos internacionais, na contramão da anterior percepção de silêncio.

Começa a acontecer mobilização diplomática significativa em 31 de março e 1º de abril. O Conselho de Segurança da ONU é convocado para reunião de emergência a pedido da França e da Indonésia para discutir os ataques às forças de paz e a expansão da invasão israelense. O ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Noel Barrot, condena os ataques e convoca o embaixador israelense em Paris após soldados franceses da UNIFIL terem sido "intimidados" por tropas de Israel. O embaixador na ONU classifica as ações como possíveis crimes de guerra, afirmando que a escalada decorre de repetidas incursões israelenses em território libanês. O governo indiano condena formalmente os ataques e expressa "profunda preocupação com a segurança das tropas internacionais no terreno". 

A situação é de extrema tensão diplomática, com a ONU alertando que a criação da "zona de segurança" por Israel pode constituir uma ocupação ilegal de longo prazo. 

Como dissemos em artigos anteriores aqui nesse blog, a atual operação israelense no Líbano é a consolidação político-militar, na Fronteira Norte, do projeto sionista Grande Israel deflagrado com a criação do Estado de Israel em 1948, em substituição ao Mandato Britânico pela Partilha da Palestina.

Israel aproveita a janela de oportunidades da guerra que reiniciou contra o irã com o apoio dos EUA, os olhares do mundo voltados a Ormuz e Suez, e vai passando a boiada sobre o Líbano, transitando velozmente de uma justificativa de segurança para uma administração militar e ocupação territorial e hídrica de longo prazo, consolidando o controle sobre o Rio Litani e “as alturas estratégicas”, enquanto a resistência diplomática internacional tenta lidar com o custo humano e os ataques às forças da ONU.

Apenas no dia 31 de março, as “forças de defesa israelenses” registraram mais de 200 bombardeios aéreos e de artilharia concentrados na calha do Rio Litani e em áreas adjacentes ao Norte. O objetivo tático foi a fragmentação total da logística regional, com a destruição sistemática de pontes, depósitos de suprimentos e redes de telecomunicações, inviabilizando qualquer estrutura de suporte à vida ou resistência na zona pretendida.

A emissão de ordens de evacuação em massa para além do Rio Litani visa criar um vácuo demográfico permanente, removendo o "obstáculo civil" para a consolidação da nova fronteira de controle israelense.

O balanço de vítimas fatais e feridos atingiu níveis críticos (há relatos de 1.300 mortos apenas em 2026), com destaque para civis, a maioria mulheres e crianças, e à vulnerabilidade de pessoal protegido por leis internacionais, entre esses, mortos e diversos feridos em ataques a postos de observação e comboios, paramédicos da Cruz Vermelha Libanesa e pessoal de agências de socorro atingidos durante tentativas de resgate, além de registro de jornalistas mortos e feridos em ataques a centros de mídia e veículos de imprensa identificados, inviabilizando como ocorrido até outubro de 2025 em Gaza, a cobertura independente dos "fatos consumados" no terreno.

A escala dos bombardeios e o deslocamento em massa sugerem que a estratégia ultrapassa a neutralização do Hezbollah, configurando criminosa transferência populacional forçada. Ao remover a população e destruir a base física de sobrevivência, Israel estabelece o controle sobre o recurso hídrico do Litani e “as alturas estratégicas”, enquanto o mundo prioriza a estabilidade dos fluxos nos estreitos de Ormuz e Suez, consolidando o fato consumado.

 


31 março, 2026

A estratégia militar sionista e o expansionismo colonialista

 




O primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu anuncia oficialmente a expansão da "zona de segurança" no sul do Líbano. Embora o governo já tivesse sinalizado dias atrás a intenção de controlar o território até o Rio Litani, a nova diretriz dada ao Exército (IDF) visa ampliar ainda mais essa área para neutralizar capacidades remanescentes do Hezbollah. Cerca de 3.500 pessoas já foram mortas por balas, bombas e foguetes israelenses no mês de março de 2026. Dentre elas, jornalistas e soldados das Forças de paz da ONU.

A estratégia militar de Tel Aviv no Líbano, intensificada em setembro de 2024 e com desdobramentos em 2025 e 2026, já foi descrita como uma réplica dos métodos utilizados na Faixa de Gaza, incluindo bombardeios pesados em áreas densamente povoadas e deslocamento populacional em massa, que têm garantido maioria parlamentar para vultosas suplementações orçamentárias e permanêrncia de Benjamin Netanyahu como o líder do bloco sionista e chefe plenipoitenciário de todos os israelenses

O objetivo estratégico alegado é o de sempre: afastar as ameaças de mísseis antitanque e impedir tentativas de invasão terrestre contra as comunidades do norte de Israel. Netanyahu afirmou que a zona tampão existente será ampliada para "mudar fundamentalmente a situação no Norte". Na prática, as tropas israelenses já avançam em direção ao Rio Litani e atingiram afluentes estratégicos perto de vilarejos como Qantara.

Israel intensificou a demolição de casas em vilarejos fronteiriços e a destruição de pontes sobre o Litani para isolar a região sul do restante do Líbano.

À semelhança do ocorrido na ocupação das Colinas de Golan, tomadas da síria, dois pontos centrais conectam a estratégia militar à viabilidade de longo prazo de um território: recursos hídricos e controle demográfico.

O Rio Litani é o "santo graal" hídrico da região. Ele corre inteiramente dentro do Líbano, mas sua proximidade com a fronteira sempre despertou interesse o interesse de Israel.

Controlar as margens ou o curso do Litani permitiria, tecnicamente, o desvio de águas para o Negev ou para o Norte de Israel, que enfrenta escassez hídrica crônica.

No projeto político-militar sionista do "Grande Israel", a segurança hídrica é um pilar. Ter o controle físico do rio garante que Israel não dependa apenas da dessalinização ou do Mar da Galileia.

Um rio não precisa de gente para correr. A tática de criar uma zona de exclusão (despovoamento) serve à limpeza étnica e ao controle do território.

Ao forçar a saída da população civil libanesa sob pretexto de combate ao Hezbollah, Israel cria um vácuo demográfico. Historicamente, áreas declaradas como "zonas militares fechadas" ou "zonas de segurança" costumam ser o primeiro passo para a instalação de infraestrutura civil (colonatos). Sem população local para oferecer resistência cotidiana, a ocupação se torna menos custosa politicamente no início. A ocupação do Rio Litani é um "detalhe de rodapé" para o sistema global, mas um pilar fundamental para o projeto de Estado-Nação de Israel.

O neoimperialismo aliado do projeto sionista sustenta essa expansão porque ela garante um aliado estável e tecnologicamente avançado num ponto estratégico, enquanto o resto do mundo se preocupa com o preço do frete marítimo.

Em 2026, Israel anuncia o avanço para além do Rio Litani. O objetivo declarado é a segurança, mas a prática aponta para a criação de uma zona de exclusão despovoada, garantindo o controle de recursos hídricos estratégicos e neutralizando a ameaça do Hezbollah sob o olhar omisso da comunidade internacional (focada em Ormuz e Suez).

No entanto, desde 1948, Israel expandiu significativamente seu território original de 55% da Palestina mandatária (Plano da ONU) após guerras com vizinhos árabes. A maior mudança ocorreu na Guerra dos Seis Dias (1967), ocupando a Cisjordânia, Faixa de Gaza, Península do Sinai e Colinas de Golã, devolvendo o Sinai posteriormente, mas mantendo colonatos.

Principais Marcos Territoriais

Em 1948/1949, ano da fundação do Estado de Israel e da Guerra da Independência, Israel foi criado com cerca de 53,5% da Palestina, enquanto o Estado Palestino teria 45,4%, com Jerusalém internacionalizada. A Guerra de Independência se encerra em 1949) com controle israelense de cerca de 78% do território e expulsão de cerca de 750 mil palestinos.

Em 1967 (Guerra dos Seis Dias), Israel ocupou a Península do Sinai e Faixa de Gaza (do Egito), Cisjordânia e Jerusalém Oriental (da Jordânia) e as Colinas de Golã (da Síria), a grande expansão é o marco inicial do neoimperialismo regional, quando Israel triplica seu tamanho, ocupando as Colinas Golã, passando à gestão regional da água, avançando sobre a Cisjordânia e Gaza, dando corpo físico ao projeto político-militar sionista e iniciando o controle sobre as bacias hidrográficas vitais.

Em 1979, assina a paz com o Egito, devolve a Península do Sinai, um terreno vasto, seco e despovoado, em troca de reconhecimento diplomático formal. O projeto sionista volta suas forças para o Norte, iniciando a primeira ocupação prolongada do Sul do Líbano para criar a primeira "zona de segurança".

Em 1993/1994, Israel assina os Acordos de Oslo, com a OLP, estabelecendo a Autoridade Nacional Palestina, iniciando a devolução parcial de áreas na Cisjordânia e Gaza, mas acabou estabelecendo um sistema de "ilhas" de controle palestino cercadas por controle militar israelense, mantendo as principais fontes de água e pontos estratégicos sob domínio de Israel.

Em 2005, Israel retira os colonatos e tropas da Faixa de Gaza, mas manteve controle exclusivo das fronteiras, espaço aéreo e marítimo, consolidando o controle por "fatos consumados" e focando na anexação silenciosa e expansão de assentamentos na Cisjordânia, utilizando barreiras físicas e controle de recursos para fragmentar a soberania palestina.

Essa sequência mostra que, desde o início, a geografia de Israel não é estática; ela se expande conforme a oportunidade militar e a necessidade de recursos (água e terra) se alinham à tolerância global.

Atualmente, o que Israel pretende no Líbano, segundo suas declarações oficiais e movimentações militares recentes em 2026, é consolidar uma "zona de segurança" para neutralizar a ameaça do Hezbollah e garantir o retorno dos residentes do norte de Israel às suas casas. 

Os objetivos estratégicos admitidos publicamente incluem criação de um perímetro de segurança numa zona que se estenda para além do Rio Litani a cerca de 30 km ao norte da fronteira), visando impedir que o Hezbollah mantenha infraestrutura militar ou lance ataques diretos contra o território israelense.

O governo israelense exige que as forças do Hezbollah se retirem para o norte do Rio Litani, permitindo que apenas o Exército Libanês (LAF) e forças da ONU (UNIFIL) operem no sul do país, conforme o estabelecido pela Resolução 1701 da ONU.

Embora o Líbano tenha declarado atividades militares do grupo Hezbollah como ilegais em março de 2026, Israel mantém pressão militar para degradar a capacidade de mísseis e o comando da organização, que já teve líderes como Hassan Nasrallah eliminados em fases anteriores do conflito.

Tais ações visam a neutralização da influência iraniana, inviabilizando acesso ao Hezbollah, principal força militar em território libanês. 

A estratégia de destruição da infraestrutura para "limpeza" de vilarejos no Sul e ultimatos para evacuação em massa buscam pressionar o governo central do Líbano a assumir o controle total do território, embora haja o risco de desencadear instabilidade interna ou até uma nova guerra civil no Líbano devido às fraturas sectárias.

O anúncio ocorre em meio a uma campanha militar mais ampla que Israel descreve como um confronto direto contra o Irã e seus aliados, após escaladas contínuas iniciadas no em março de 2026.

Essa movimentação marca uma transição de ataques transfronteiriços para o que observadores internacionais descrevem como uma ocupação de longo prazo de 10% ou mais do território libanês

A estratégia militar oficial em conexão com a ideologia expansionista é a síntese do projeto do "Grande Israel" (Eretz Yisrael Hashlema). Enquanto o governo justifica a expansão para além do Litani como uma necessidade de segurança nacional (parar foguetes e incursões), a ala mais à direita do espectro político israelense evoca as fronteiras bíblicas, que incluiriam partes do sul do Líbano.

O histórico de Israel mostra que "zonas de segurança" temporárias podem se tornar ocupações de décadas (como ocorreu no sul do Líbano entre 1985 e 2000). Para os defensores do Grande Israel, essas ocupações são passos para a anexação definitiva.

A demolição de infraestrutura e a criação de "zonas mortas" (áreas despovoadas) lembram a dinâmica aplicada na Cisjordânia, onde o controle militar precede o controle territorial total.

Tudo se passa escancarado à vista do mundo, televisionado e revela dramaticamente a ineficácia das instituições internacionais (como a ONU) enquanto desvela a política de "fatos consumados".

No Conselho de Segurança da ONU, qualquer resolução prática contra Israel é historicamente barrada por veto dos Estados Unidos. Sem sanções ou consequências reais, as declarações de "preocupação" da comunidade internacional tornam-se apenas retórica.

Então, Israel aplica no Líbano o que já funcionou na Cisjordânia, que já funcionara no Golã: ocupa o território, destrói a infraestrutura local e cria uma nova realidade física. Quando a diplomacia finalmente tenta agir, a configuração do terreno já mudou tanto que a reversão se torna impossível.

É quando as potências ocidentais parecem mais preocupadas em evitar que o conflito se torne “uma guerra mundial contra o Irã” do que em proteger a integridade territorial do Líbano. Uma explícita carta branca para que Israel avance. No caso específico da água do Rio Litani e da expansão territorial, o silêncio ou a lentidão internacional acabam servindo como uma autorização tácita. Enquanto o mundo discute ajuda humanitária, a geografia está sendo redesenhada de forma permanente.

Oficialmente, o Estado de Israel cala sobre os propósitos de longo prazo ou nega a intenção de anexar o Líbano, tratando a operação como uma manobra defensiva contra o Hezbollah. E, no entanto, o fato de a "zona de segurança" estar se expandindo para além do limite geográfico do Rio Litani consubstancia a tese de que o objetivo final pode ser um redesenho permanente das fronteiras regionais, alinhado ao ideal expansionista.

A Semelhança com a Cisjordânia é mais que coincidência. O modelo que vai sendo praticado hoje no Líbano espelha o que foi feito no Vale do Jordão. Declara-se a área como vital para a segurança do Estado de Israel, restringe-se o acesso da população local aos recursos, à água e à terra, instalam-se postos avançados que, com o tempo, viram comunidades permanentes.

O controle do Litani daria a Israel o domínio sobre a bacia hidrográfica mais importante ao norte, consolidando uma hegemonia territorial que vai muito além da simples defesa contra foguetes.

O Líbano, como Estado fragmentado, não tem condições de oferecer algum tipo de resistência diplomática ou militar que mude esse rumo empreendido pelo projeto político-militar sionistas desde a tomada das Colinas de Golã, o "modelo" perfeito para o acontece agora no sul do Líbano em relação ao Rio Litani “e além”, no dizer atualizado de Netanyahu.

Existem três semelhanças fundamentais nesse "destino histórico": 1. A Geopolítica da Água (Hidropolítica)

Assim como o sul do Líbano tem o Litani, o Golã é a principal fonte de água doce para Israel. Controlar Golã é dominar as nascentes do Rio Jordão e o Mar da Galileia (Lago Kinneret). Quem tem o Golã, controla a torneira de Israel.

O Rio Litani, ao Sul do Líbano, a 30 quilômetro da fronteira Norte com Israel, despeja milhões de metros cúbicos de água doce no Mediterrâneo. Para um projeto de expansão territorial e agrícola (como o dos colonatos), capturar essa água é a diferença entre um deserto e uma região produtiva.

A Justificativa da "Segurança” tornou a ocupação em do Golã em anexação. Israel ocupou a área em 1967 alegando que a Síria usava o planalto para bombardear comunidades israelenses abaixo. Em 1981, anexou o território unilateralmente.

A justificativa no Litani é o Hezbollah. Ao destruir vilarejos, explodir pontes e expandir a zona para além do Litani, o movimento migra de uma "operação militar" para uma ocupação territorial de longo prazo, repetindo o roteiro do Golã.

Para consolidar o controle da água e da terra, a estratégia costuma ser o despovoamento permanente. No Golã, a grande maioria da população síria foi expulsa ou fugiu em 1967. No sul do Líbano, as ordens de evacuação em massa e a destruição impiedosa e continuada da infraestrutura tornam a volta dos civis libaneses quase impossível.

Sem habitantes locais, a área fica livre para a exploração de recursos e, eventualmente, para a instalação de postos avançados de colonização.

Tanto a Síria (no Golã) quanto o Líbano (no Sul) acabam perdendo soberania sobre seus recursos naturais mais valiosos sob o argumento da "necessidade militar defensiva do Estado de Israel". No final das contas, o mapa do "Grande Israel" se desenha onde a água corre e onde a topografia oferece vantagem estratégica.

Para as grandes potências, a soberania do Líbano ou a água do Litani são "problemas locais", enquanto o comércio global é uma questão de sobrevivência.

As artérias do capital, o Estreito de Ormuz (fertilizantes, gás, petróleo) e o Canal de Suez/Bab el-Mandeb (logística global) são os pontos onde o mundo "sente dor" no bolso. Se o fluxo de navios para a inflação explode em Nova York, Londres e Pequim...

O "Sacrifício" do Líbano. Enquanto Israel mantém esse aspecto da guerra contido como conflito em terra firme (mesmo expandindo para o Líbano), o impacto sistêmico na economia global é administrável. Por isso, a tolerância implícita: "façam o que precisarem em terra, desde que as rotas marítimas continuem abertas".

Muitas vezes, a liberdade que Israel recebe para redesenhar suas fronteiras ao Norte é o preço que o Ocidente paga para que Israel não escale um ataque direto às infraestruturas iranianas, o que resultaria no fechamento de vez o Estreito de Ormuz pelo Irã.

No fim das contas, a geografia dos recursos (água e terra no Líbano) está sendo devorada enquanto a geografia do fluxo (canais e estreitos) é protegida. O Líbano, fragilizado e sem peso econômico global, acaba sendo o elo mais fraco dessa corrente.

O Irã não é apenas um "eixo de resistência"; é também um Estado com uma economia que precisa respirar, e sabe que travar o Estreito de Ormuz é um "botão de autodestruição" econômica para si mesmo.

O Irã é um dos maiores importadores mundiais de trigo e milho. Se fecha o tráfego marítimo para punir Israel ou o Ocidente, cortam o próprio suprimento de comida. A inflação interna já é altíssima; um bloqueio poderia ser estopim para revoltas domésticas incontroláveis.

O regime iraniano sobrevive da venda de petróleo e gás (principalmente para a China). O caos no Golfo Pérsico interrompe o fluxo de caixa que mantém o governo e as próprias milícias que financiam no exterior (Hezbollah, Houthis).

Isso explica porque a Comunidade Internacional se sente "confortável" em deixar Israel avançar sobre o Rio Litani e manter ocupadas Colinas de Golã:

Avaliam que o Irã vai gritar, mas dificilmente “suicidará” sua economia travando Ormuz por causa da água do Líbano ou a autonomia Palestina em Gaza e na Cisjordânia.

Netanyahu lidera o projeto político-militar sionista e aproveita o "equilíbrio de medos" para consolidar o Projeto Grande Israel na prática, sabendo que a prioridade global é o preço do barril e a logística de grãos, e não o desenho das fronteiras terrestres libanesas, sírias, palestinas.

No fim, palestino e libaneses acabam sendo a moeda de troca na moita. Israel expande seu domínio hídrico e territorial, o Irã mantém suas rotas de exportação abertas para não colapsar internamente, e o mundo finge que não vê as anexações de fato porque o fluxo continua operando nos canais de Suez e Ormuz.

Se os impérios antigos (Roma, Otomanos) conquistavam por marcha territorial e os coloniais (século XIX) por extração de matéria-prima, o neoimperialismo opera por controle de fluxos e pontos nodais.

A lógica atual terceiriza a fronteira. O "império" moderno (liderado pelos EUA e grandes blocos econômicos) não precisa administrar o território libanês ou sírio diretamente. Ele permite que aliados regionais fortes, como Israel, façam a "limpeza" e o controle geográfico (água, terra, zonas de exclusão), desde que os canais globais (Suez, Ormuz) permaneçam abertos para o capital.

O neoimperialismo sustenta-se na capacidade de decidir quem morre no escuro (o Líbano, longe das câmeras e do interesse econômico) e quem é protegido (as rotas de gás, petróleo, grãos e fertilizantes que alimentam o sistema). É um imperialismo seletivo, das commodities.

Impõe-se a sobrevivência pelo pragmatismo. Mesmo o Irã, "adversário do sistema” está preso a ele. E sustentam o neoimperialismo porque dependem da mesma infraestrutura global para importar comida e exportar energia. Ninguém quer derrubar o tabuleiro; todos querem apenas uma fatia maior dele.

Não confunda judaísmo com sionismo, mas tenha em mente que a ideologia dominante em uma sociedade é a ideologia da classe que domina essa sociedade. 

O Sionismo Político é um movimento nacionalista moderno, surgido no final do século XIX, enquanto o Judaísmo é uma tradição religiosa e ética milenar.

Muitos judeus (incluindo grupos ortodoxos e pensadores humanistas) criticam o projeto do Grande Israel (Eretz Yisrael Hashlema), argumentando que a ocupação territorial e o expansionismo militar entram em conflito com os valores espirituais e morais da fé judaica.

Separar o projeto de Estado da identidade religiosa é o que permite entender por que essa expansão sobre o Litani ou o Golã é uma estratégia de poder político, e não um consenso teológico.

Para entender o projeto político do Grande Israel é essencial olhar para a ala revisionista do sionismo, liderada por Ze'ev Jabotinsky, que deu origem ao atual partido Likud (de Netanyahu).

Jabotinsky, o fundador ideológico do projeto, escreveu The Iron Wall", O Muro de Ferro, em 1923.  No ensaio publicado antes da existência de um estado de judeus, ele defendia que os árabes nunca aceitariam a partilha da Palestina voluntariamente. Portanto, a colonização judaica deveria ocorrer sob a proteção de uma força armada inabalável (o muro de ferro) até que os árabes desistissem de resistir.

O projeto original do "Revisionist Zionism" reivindicava ambas as margens do Rio Jordão (incluindo a atual Jordânia). O Rompimento com o Mandato Britânico tem raízes no White Paper de 1939, a imposição da a limitação à imigração judaica para a Palestina, com o objetivo de acalmar as revoltas árabes.

Menachem Begin, que viria a ser primeiro-ministro de Israel, liderava a organização paramilitar Irgun, quando deflagrou "The Revolt" contra o Mandato Britânico em 1944.

Para os revisionistas, os britânicos se tornaram um obstáculo ao "destino histórico" de um estado judeu em toda a extensão da Palestina mandatária. Eles usaram táticas de guerrilha e atentados terroristas (como o do King David Hotel) para forçar a saída britânica.

Inicialmente, nem todos os judeus apoiaram essa via política que incorporava o terrorismo e o expansionismo como objetivo. Grupos de judeus ultraortodoxos tornaram-se oposicionistas à existência do Estado de Israel sustentando que um Estado judeu soberano como o proposto pelo sionismo político seria uma violação de juramentos bíblicos. Os haredim se articulavam em torno do "Haredi Anti-Zionism", o Antissionismo Haredi, propagando que um Estado de Israel só deveria ser estabelecido com a vinda do Messias.

Grupos como Neturei Karta e Satmar Hasidism argumentam que a criação de um estado judeu por mãos humanas e força militar é uma rebelião contra a vontade divina.

O destacado intelectual religioso israelense Yeshayahu Leibowitz, tornou-se um crítico ferrenho crítico da ocupação de 1967, chamando-a de "messianismo político" que corromperia o judaísmo.

Intelectuais judeus como Hannah Arendt (que cobriu o julgamento de Eichmann) e, mais recentemente, Norman Finkelstein e Gideon Levy, alertaram para o perigo de um povo traumatizado repetir padrões de opressão contra outros para garantir sua própria "segurança". Todos argumentaram que o "nunca mais" deveria ser universal, e não apenas para um grupo.

No contexto atual (especialmente em Gaza após outubro de 2023), a África do Sul levou Israel ao Tribunal Internacional de Justiça (CIJ) acusando-o de genocídio. O argumento é que a destruição sistemática de hospitais, escolas, sistemas de água e o bloqueio de ajuda criam condições de vida destinadas a destruir o grupo físico, parcial ou totalmente.

Ao sugerir que os palestinos podem "sobreviver em qualquer lugar" (Egito, Jordânia, América Latina), o projeto sionista nega o direito de autodeterminação e o vínculo histórico deles com a terra. É a ideia de que "são apenas árabes", e como há muitos países árabes, eles poderiam ser absorvidos por outros, deixando a Palestina livre para o "povo escolhido".

O que vemos em Gaza e no sul do Líbano hoje é a criação de condições inviáveis de vida. Destruir hospitais, escolas e o acesso à água (como discutimos nos casos de Gola e Litani) não é apenas um ato de guerra; é uma mensagem: "Aqui não há futuro, saiam". É o incentivo à migração sob bombardeio.

Antes da "Solução Final" (o extermínio), o regime nazista chegou a considerar o Plano Madagascar, que pretendia expulsar e transferir todos os judeus da Europa para aquela ilha na África.

A lógica era a mesma: "eles podem existir, desde que não aqui". A substituição de uma população por outra através da transferência forçada é um crime de guerra sob o estatuto moderno, mas é uma ferramenta antiga de impérios e nacionalismos extremos.

Para o projeto do Grande Israel, a terra (e sua água) é um ativo estratégico. A população nativa é vista como um "obstáculo demográfico". Se eles podem ser "diluídos" em outros países, o "problema" desaparece sem a necessidade formal de um extermínio, mas com o mesmo resultado prático: o desaparecimento de uma cultura e de um povo de seu território de origem.

Essa visão de que "o outro" é deslocável e irrelevante para a paisagem é o que sustenta a expansão das fronteiras desde 1948.

No fim das contas, a estratégia de "dispersão" e "inviabilização da vida" no território (seja no Líbano, na Palestina, na Síria) conta com o tempo e a fadiga da comunidade internacional encostada à parede pela geopolítica bruta do fato consumado.

Enquanto o mundo discute a moralidade das ações ou monitora os movimentos em tempo real, as escavadeiras avançam, as vilas são demolidas, as pontes e estradas explodidas, as fontes de água cercadas, as pessoas mortas às centenas, aos milhares...

A história mostra que o que hoje é um "escândalo internacional", em dez ou vinte anos vira uma "questão complexa e consolidada". Foi assim com as Colinas de Golã e com os grandes blocos de colonatos na Cisjordânia.

Ao destruir a infraestrutura básica (escolas, hospitais, redes de água), cria-se um cenário onde "voltar" não é mais uma opção viável para as famílias. A migração para o Paraguai, Egito ou Europa deixa de ser uma escolha política e vira uma questão de sobrevivência biológica.

Para o projeto do Grande Israel, a opinião pública global é um ruído administrável, desde que o controle físico da terra e da água seja garantido.

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