O México enfrenta hoje uma crise de segurança aguda após uma grande operação militar que resultou na morte de Nemesio "El Mencho" Oseguera*, chefe do Cartel de Jalisco Nova Geração (CJNG), o narcotraficante mais procurado do país foi morto no domingo 22 em ação do Exército mexicano com apoio de inteligência dos EUA. Em retaliação, o cartel iniciou ataques violentos e bloqueios em diversas regiões, especialmente em Jalisco e Guadalajara. Companhias aéreas cancelaram voos e os EUA emitiram alertas de viagem para seus cidadãos. Relatos indicam um colapso na percepção de segurança, com os cartéis declarando o poder público como alvo militar direto. A presidenta Claudia Sheinbaum fez um pronunciamento oficial à nação em rede nacional.
23 fevereiro, 2026
CLAUDIA SHEINBAUM ENFRENTA O NARCOTRÁFICO NO MÉXICO - Nemesio Oseguera, chefe do cartel CJNG, morre em confronto
foto: Yuri CORTEZ / AFP-via Brasil de Fato.....
A presidenta Claudia Sheinbau enfatizou que "o Estado mexicano não se deixará intimidar por grupos criminais" e que a operação foi um passo necessário para a pacificação a longo prazo do país. Ela defendeu que a morte do líder não foi fruto de um "confronto cego", mas de meses de trabalho de inteligência, tentando distanciar sua gestão da estratégia de "guerra total" de governos anteriores. Prometeu o deslocamento imediato de contingentes da Guarda Nacional para as áreas de maior conflito (como Guadalajara e Zapopan) para proteger a população civil e restabelecer o livre trânsito e pediu aos cidadãos que evitem compartilhar desinformação e vídeos de propaganda do cartel, que visam espalhar o pânico social.
Através de suas redes sociais e comunicados oficiais, a presidenta expressou publicamente seu "reconhecimento ao Exército Mexicano, à Guarda Nacional e ao Gabinete de Segurança" pela operação que eliminou o líder do CJNG. Garantiu que há "coordenação absoluta" entre o governo federal e os governos estaduais para responder aos bloqueios e atos de violência, especialmente em Jalisco. A presidenta enfatizou que, apesar dos focos críticos de violência, "na grande maioria do território nacional, as atividades decorrem com total normalidade". Confirmou a prisão de 25 pessoas ligadas a atos de vandalismo e saques durante a onda de retaliação. As autoridades também informaram que a maioria dos mais de 250 bloqueios realizados pelo cartel em 20 estados já fora liberada até a noite de domingo. Apesar da postura firme, a presidenta enfrenta uma pressão política considerável. Oposição e críticos argumentam que a morte de um chefe do narcotráfico fragmenta o cartel e gera guerras internas ainda mais sangrentas pela sucessão.
Setores oposicionista questionam o nível de envolvimento da inteligência americana na operação em solo mexicano. Empresários cobram um plano de emergência para evitar o colapso do turismo em regiões afetadas pelos bloqueios.
"Nossa prioridade é a paz, mas a paz só se constrói com justiça e com a aplicação da lei. Não recuaremos um passo sequer na proteção das famílias mexicanas," enfatizou Claudia Sheinbaum.
A sustentação política de Claudia Sheinbaum repousa em um tripé de alta aprovação popular, controle legislativo e uma relação pragmática, porém vigilante, com as Forças Armadas. Sheinbaum mantém uma posição de força inédita na história contemporânea do México através da coalizão liderada pelo Morena (Movimento de Regeneração Nacional)
O governo detém controle suficiente para aprovar reformas constitucionais sem depender da oposição. Isso permitiu o avanço da polêmica reforma do Judiciário, que estabelece a eleição de juízes por voto popular.
A oposição permanece fragmentada, o que garante à presidente uma margem de manobra ampla para implementar políticas de segurança e economia sem grandes bloqueios legislativos.
A relação com as Forças Militares e de Segurança é marcada por uma "militarização administrativa" herdada de seu antecessor, López Obrador, em que os militares têm recebido funções que extrapolam a defesa nacional, incluindo a gestão de aeroportos, alfândegas e grandes obras de infraestrutura, o que garante ao governo o apoio da cúpula militar.
Sheinbaum reforçou recentemente a unidade com os militares ao rejeitar categoricamente qualquer intervenção direta dos EUA (proposta por Donald Trump) em solo mexicano, afirmando que a segurança do país é uma questão de soberania nacional.
O governo consolidou a integração da Guarda Nacional às Forças Armadas, garantindo um braço operacional robusto para enfrentar a atual crise de segurança.
A presidenta mantém índices de aprovação acima de 60%, figurando como uma das líderes mais populares da América Latina. Esse apoio é alimentado pelo programa de assistência social descrito como o "mais ambicioso da história", beneficiando cerca de 21 milhões de pessoas. Existe um recente tensão com setores liberais de resistência entre ONGs de direitos humanos e organizações jurídicas, que veem na reforma do Judiciário e na hegemonia militar da segurança pública um risco de erosão democrática.
No campo à esquerda, Claudia Sheibaun e o Morena vivem momentos de hostilidade ideológica. O Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), embora confronte o narcotráfico, não vê o governo Morenista como um aliado de esquerda, mas como uma continuidade do "projeto neoliberal e extrativista". O EZLN se opõe firmemente a obras como o Trem Maia e o Corredor Interoceânico, iniciados por López Obrador, presidente do México entre 2018 e 2024, fundador do Movimento de Regeneração Nacional, e continuados por Claudia Sheinbaum, do partido Morena, alegando destruição ambiental e despojo de terras indígenas. Os zapatistas ainda acusavam o governo de omissão ante o avanço dos cartéis (como o CJNG e o Cartel de Sinaloa) sobre territórios indígenas em Chiapas. Recentemente, o grupo afirmou que o governo "fingia que a paz existia enquanto o estado sangrava", embopra ainda não haja registro da posição sobre os eventos do fim de semana.
Com o EPR e Guerrilhas Marxistas, a política ante o governo é de vigilância e silêncio. Diferente dos zapatistas, que têm voz pública, o EPR atua nas sombras. A gestão Sheinbaum mantém essas organizações sob estrita vigilância do Centro Nacional de Inteligência (CNI). O governo evita dar legitimidade política a esses grupos, tratando-os frequentemente como problemas de segurança pública ou remanescentes de conflitos antigos.
O governo afirma que, com os programas sociais do Morena, não há mais justificativa para a luta armada, enquanto o EPR sustenta que a "militarização" sob Sheinbaum é uma ferramenta de controle social.
O México ainda tem ativos movimentos populares comunitários de autodefesas, que tem sido a frente mais pragmática e perigosa para o governo. Sheinbaum mantém a diretriz de que apenas o Estado (via Guarda Nacional) pode portar armas e prover segurança. Isso gera confrontos em estados como Michoacán, onde comunidades se recusam a entregar armas alegando que o exército não as protege dos cartéis.
O governo teme que essas organizações civis armadas sejam usadas como "fachada" para grupos criminosos, com o que justifica operações frequentes de desarticulação desses grupos por parte das forças federais.
Claudia Sheinbaum enfrenta o paradoxo de ser presidenta progressista que depende do Exército para governar, o que a afasta das bases sociais mais radicais e autonomistas que tradicionalmente compunham o leque das frentes de esquerda mexicana. E tem sempre presente a antiga expressão "Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos", atribuída a Porfirio Díaz, que foi presidente do México por sete mandatos, totalizando mais de 30 anos no poder (1876-1911).
A economia mexicana enfrenta dificuldades estruturais e externas históricas. Projeções do FMI apontam uma recuperação de1,5% para 2026 contra o crescimento de apenas 0,7% em 2025, o pior desde 2020. Em janeiro de 2026, a inflação subiu para 3,79%, refletindo a pressão nos preços domésticos.
Embora o México tenha mantido o status de principal parceiro comercial dos EUA, o governo de Claudia Sheinbaum também enfrenta o desafio de lidar com ameaças tarifárias de Washington sobre aço e alumínio e retaliações devido ao apoio humanitário do México a Cuba, que desafia o bloqueio total estadunidense ampliado por Trump após o sequestro de Maduro e controle do tráfego de petroleiros da Venezuela no Caribe.
O Morena é, formalmente, um partido político. No entanto, sua identidade e funcionamento misturam características de diversas estruturas: tem status jurídico oficial de partido político desde 2014, quando obteve registro no Instituto Nacional Eleitoral (INE) do México. Possui estatutos e uma militância registrada de mais de 11 milhões de membros ( em 2026) e estrutura de liderança própria.
O nome "Movimento" não é apenas figurativo, o Morena nasceu em 2011 como uma associação civil e mantém uma forte base de mobilização popular, operando muitas vezes com a lógica de "movimento de massas" para sustentar as reformas do governo.
Nas eleições, o Morena não atua sozinho. Ele é o eixo central de uma coalizão eleitoral chamada "Sigamos Haciendo Historia" (Vamos Continuar Fazendo História), que inclui outros partidos menores, como o Partido do Trabalho (PT) e o Partido Verde Ecologista do México (PVEM).
Na prática política atual, ele é descrito como partido hegemônico, pois abriga desde a esquerda tradicional até políticos pragmáticos que migraram de partidos antigos, controlando a presidência, a maioria do Congresso e a maior parte dos governos estaduais.
O México também tem buscado sustentação externa através de alianças regionais, ainda mantendo apoio diplomático a governos como Cuba e Venezuela, o que gera atritos com a ala mais conservadora do Congresso americano e governos latino americanos de centro, direita ou extrema direita.
A onda de violência desencadeada pela retaliação do Cartel de Jalisco Nova Geração (CJNG) impactou diversas regiões: O próprio "El Mencho" foi gravemente ferido durante o tiroteio na operação militar em Jalisco e morreu durante o transporte aéreo para a Cidade do México.
Foram registrados atentados contra militares e seus familiares, além de ataques em locais públicos como comércios, bases policiais e o Aeroporto de Guadalajara, onde houve pânico e relatos de disparos.
Na capital, a dinâmica foi de segurança máxima e manifestações políticas paralelas. A concentração principal ocorreu em torno do Palácio Nacional e do Zócalo, onde o governo reforçou as barreiras de proteção. A presidente Claudia Sheinbaum fez um pronunciamento pedindo calma e garantindo que o Estado mantém o controle.
Um ataque armado em um parque infantil no centro do país dias antes (18 de fevereiro) já havia deixado um morto e 10 feridos, incluindo menores de idade, elevando a tensão prévia à operação.
Paralelamente à crise dos cartéis, a capital tem sido palco de marchas juvenis contra o aumento da violência e as políticas de segurança. Em concentrações recentes, houve confrontos com a polícia, resultando em cerca de 120 feridos (incluindo 40 policiais) e 20 prisões após manifestantes tentarem romper cercas do Palácio Nacional.
A Embaixada dos EUA emitiu alertas urgentes, e a Cidade do México permanece sob vigilância ostensiva da Guarda Nacional para evitar que a retaliação dos cartéis atinja o coração político do país.
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* Juan Carlos, enteado de El Mencho, poderia realisticamente tornar-se o seu sucessor. Ele liga os dois pilares do CJNG: o clã Oseguera através do seu padrasto e a família Valencia, Los Cuinis, a espinha dorsal financeira do cartel, a que ele pertence por sangue. Esta aliança do poder de fogo de Mencho e do dinheiro de Valencia construiu o CJNG no que é hoje. Conhecido como "El 03", ele personifica essa fusão e comanda o Grupo Élite, a unidade mais capaz e brutal do cartel, efectivamente a sua guarda pretoriana. O problema é que El 03 representa a "juventude dourada" do cartel. Ele é agressivo, impulsionado pelos media e propenso a excesso de violência, alegadamente ligado ao ataque ao chefe da polícia da Cidade do México, Omar García Harfuch, e aos raptos de oficiais em Guanajuato. Os capos veteranos que controlam o território podem resistir a receber ordens de uma figura jovem e impulsiva, cuja autoridade assenta no seu nome e numa força de ataque leal, em vez de alianças de longa data. Via Eduardo Ferreira @rybar_latam
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