31 março, 2026

A estratégia militar sionista e o expansionismo colonialista

 




O primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu anuncia oficialmente a expansão da "zona de segurança" no sul do Líbano. Embora o governo já tivesse sinalizado dias atrás a intenção de controlar o território até o Rio Litani, a nova diretriz dada ao Exército (IDF) visa ampliar ainda mais essa área para neutralizar capacidades remanescentes do Hezbollah. Cerca de 3.500 pessoas já foram mortas por balas, bombas e foguetes israelenses no mês de março de 2026. Dentre elas, jornalistas e soldados das Forças de paz da ONU.

A estratégia militar de Tel Aviv no Líbano, intensificada em setembro de 2024 e com desdobramentos em 2025 e 2026, já foi descrita como uma réplica dos métodos utilizados na Faixa de Gaza, incluindo bombardeios pesados em áreas densamente povoadas e deslocamento populacional em massa, que têm garantido maioria parlamentar para vultosas suplementações orçamentárias e permanêrncia de Benjamin Netanyahu como o líder do bloco sionista e chefe plenipoitenciário de todos os israelenses

O objetivo estratégico alegado é o de sempre: afastar as ameaças de mísseis antitanque e impedir tentativas de invasão terrestre contra as comunidades do norte de Israel. Netanyahu afirmou que a zona tampão existente será ampliada para "mudar fundamentalmente a situação no Norte". Na prática, as tropas israelenses já avançam em direção ao Rio Litani e atingiram afluentes estratégicos perto de vilarejos como Qantara.

Israel intensificou a demolição de casas em vilarejos fronteiriços e a destruição de pontes sobre o Litani para isolar a região sul do restante do Líbano.

À semelhança do ocorrido na ocupação das Colinas de Golan, tomadas da síria, dois pontos centrais conectam a estratégia militar à viabilidade de longo prazo de um território: recursos hídricos e controle demográfico.

O Rio Litani é o "santo graal" hídrico da região. Ele corre inteiramente dentro do Líbano, mas sua proximidade com a fronteira sempre despertou interesse o interesse de Israel.

Controlar as margens ou o curso do Litani permitiria, tecnicamente, o desvio de águas para o Negev ou para o Norte de Israel, que enfrenta escassez hídrica crônica.

No projeto político-militar sionista do "Grande Israel", a segurança hídrica é um pilar. Ter o controle físico do rio garante que Israel não dependa apenas da dessalinização ou do Mar da Galileia.

Um rio não precisa de gente para correr. A tática de criar uma zona de exclusão (despovoamento) serve à limpeza étnica e ao controle do território.

Ao forçar a saída da população civil libanesa sob pretexto de combate ao Hezbollah, Israel cria um vácuo demográfico. Historicamente, áreas declaradas como "zonas militares fechadas" ou "zonas de segurança" costumam ser o primeiro passo para a instalação de infraestrutura civil (colonatos). Sem população local para oferecer resistência cotidiana, a ocupação se torna menos custosa politicamente no início. A ocupação do Rio Litani é um "detalhe de rodapé" para o sistema global, mas um pilar fundamental para o projeto de Estado-Nação de Israel.

O neoimperialismo aliado do projeto sionista sustenta essa expansão porque ela garante um aliado estável e tecnologicamente avançado num ponto estratégico, enquanto o resto do mundo se preocupa com o preço do frete marítimo.

Em 2026, Israel anuncia o avanço para além do Rio Litani. O objetivo declarado é a segurança, mas a prática aponta para a criação de uma zona de exclusão despovoada, garantindo o controle de recursos hídricos estratégicos e neutralizando a ameaça do Hezbollah sob o olhar omisso da comunidade internacional (focada em Ormuz e Suez).

No entanto, desde 1948, Israel expandiu significativamente seu território original de 55% da Palestina mandatária (Plano da ONU) após guerras com vizinhos árabes. A maior mudança ocorreu na Guerra dos Seis Dias (1967), ocupando a Cisjordânia, Faixa de Gaza, Península do Sinai e Colinas de Golã, devolvendo o Sinai posteriormente, mas mantendo colonatos.

Principais Marcos Territoriais

Em 1948/1949, ano da fundação do Estado de Israel e da Guerra da Independência, Israel foi criado com cerca de 53,5% da Palestina, enquanto o Estado Palestino teria 45,4%, com Jerusalém internacionalizada. A Guerra de Independência se encerra em 1949) com controle israelense de cerca de 78% do território e expulsão de cerca de 750 mil palestinos.

Em 1967 (Guerra dos Seis Dias), Israel ocupou a Península do Sinai e Faixa de Gaza (do Egito), Cisjordânia e Jerusalém Oriental (da Jordânia) e as Colinas de Golã (da Síria), a grande expansão é o marco inicial do neoimperialismo regional, quando Israel triplica seu tamanho, ocupando as Colinas Golã, passando à gestão regional da água, avançando sobre a Cisjordânia e Gaza, dando corpo físico ao projeto político-militar sionista e iniciando o controle sobre as bacias hidrográficas vitais.

Em 1979, assina a paz com o Egito, devolve a Península do Sinai, um terreno vasto, seco e despovoado, em troca de reconhecimento diplomático formal. O projeto sionista volta suas forças para o Norte, iniciando a primeira ocupação prolongada do Sul do Líbano para criar a primeira "zona de segurança".

Em 1993/1994, Israel assina os Acordos de Oslo, com a OLP, estabelecendo a Autoridade Nacional Palestina, iniciando a devolução parcial de áreas na Cisjordânia e Gaza, mas acabou estabelecendo um sistema de "ilhas" de controle palestino cercadas por controle militar israelense, mantendo as principais fontes de água e pontos estratégicos sob domínio de Israel.

Em 2005, Israel retira os colonatos e tropas da Faixa de Gaza, mas manteve controle exclusivo das fronteiras, espaço aéreo e marítimo, consolidando o controle por "fatos consumados" e focando na anexação silenciosa e expansão de assentamentos na Cisjordânia, utilizando barreiras físicas e controle de recursos para fragmentar a soberania palestina.

Essa sequência mostra que, desde o início, a geografia de Israel não é estática; ela se expande conforme a oportunidade militar e a necessidade de recursos (água e terra) se alinham à tolerância global.

Atualmente, o que Israel pretende no Líbano, segundo suas declarações oficiais e movimentações militares recentes em 2026, é consolidar uma "zona de segurança" para neutralizar a ameaça do Hezbollah e garantir o retorno dos residentes do norte de Israel às suas casas. 

Os objetivos estratégicos admitidos publicamente incluem criação de um perímetro de segurança numa zona que se estenda para além do Rio Litani a cerca de 30 km ao norte da fronteira), visando impedir que o Hezbollah mantenha infraestrutura militar ou lance ataques diretos contra o território israelense.

O governo israelense exige que as forças do Hezbollah se retirem para o norte do Rio Litani, permitindo que apenas o Exército Libanês (LAF) e forças da ONU (UNIFIL) operem no sul do país, conforme o estabelecido pela Resolução 1701 da ONU.

Embora o Líbano tenha declarado atividades militares do grupo Hezbollah como ilegais em março de 2026, Israel mantém pressão militar para degradar a capacidade de mísseis e o comando da organização, que já teve líderes como Hassan Nasrallah eliminados em fases anteriores do conflito.

Tais ações visam a neutralização da influência iraniana, inviabilizando acesso ao Hezbollah, principal força militar em território libanês. 

A estratégia de destruição da infraestrutura para "limpeza" de vilarejos no Sul e ultimatos para evacuação em massa buscam pressionar o governo central do Líbano a assumir o controle total do território, embora haja o risco de desencadear instabilidade interna ou até uma nova guerra civil no Líbano devido às fraturas sectárias.

O anúncio ocorre em meio a uma campanha militar mais ampla que Israel descreve como um confronto direto contra o Irã e seus aliados, após escaladas contínuas iniciadas no em março de 2026.

Essa movimentação marca uma transição de ataques transfronteiriços para o que observadores internacionais descrevem como uma ocupação de longo prazo de 10% ou mais do território libanês

A estratégia militar oficial em conexão com a ideologia expansionista é a síntese do projeto do "Grande Israel" (Eretz Yisrael Hashlema). Enquanto o governo justifica a expansão para além do Litani como uma necessidade de segurança nacional (parar foguetes e incursões), a ala mais à direita do espectro político israelense evoca as fronteiras bíblicas, que incluiriam partes do sul do Líbano.

O histórico de Israel mostra que "zonas de segurança" temporárias podem se tornar ocupações de décadas (como ocorreu no sul do Líbano entre 1985 e 2000). Para os defensores do Grande Israel, essas ocupações são passos para a anexação definitiva.

A demolição de infraestrutura e a criação de "zonas mortas" (áreas despovoadas) lembram a dinâmica aplicada na Cisjordânia, onde o controle militar precede o controle territorial total.

Tudo se passa escancarado à vista do mundo, televisionado e revela dramaticamente a ineficácia das instituições internacionais (como a ONU) enquanto desvela a política de "fatos consumados".

No Conselho de Segurança da ONU, qualquer resolução prática contra Israel é historicamente barrada por veto dos Estados Unidos. Sem sanções ou consequências reais, as declarações de "preocupação" da comunidade internacional tornam-se apenas retórica.

Então, Israel aplica no Líbano o que já funcionou na Cisjordânia, que já funcionara no Golã: ocupa o território, destrói a infraestrutura local e cria uma nova realidade física. Quando a diplomacia finalmente tenta agir, a configuração do terreno já mudou tanto que a reversão se torna impossível.

É quando as potências ocidentais parecem mais preocupadas em evitar que o conflito se torne “uma guerra mundial contra o Irã” do que em proteger a integridade territorial do Líbano. Uma explícita carta branca para que Israel avance. No caso específico da água do Rio Litani e da expansão territorial, o silêncio ou a lentidão internacional acabam servindo como uma autorização tácita. Enquanto o mundo discute ajuda humanitária, a geografia está sendo redesenhada de forma permanente.

Oficialmente, o Estado de Israel cala sobre os propósitos de longo prazo ou nega a intenção de anexar o Líbano, tratando a operação como uma manobra defensiva contra o Hezbollah. E, no entanto, o fato de a "zona de segurança" estar se expandindo para além do limite geográfico do Rio Litani consubstancia a tese de que o objetivo final pode ser um redesenho permanente das fronteiras regionais, alinhado ao ideal expansionista.

A Semelhança com a Cisjordânia é mais que coincidência. O modelo que vai sendo praticado hoje no Líbano espelha o que foi feito no Vale do Jordão. Declara-se a área como vital para a segurança do Estado de Israel, restringe-se o acesso da população local aos recursos, à água e à terra, instalam-se postos avançados que, com o tempo, viram comunidades permanentes.

O controle do Litani daria a Israel o domínio sobre a bacia hidrográfica mais importante ao norte, consolidando uma hegemonia territorial que vai muito além da simples defesa contra foguetes.

O Líbano, como Estado fragmentado, não tem condições de oferecer algum tipo de resistência diplomática ou militar que mude esse rumo empreendido pelo projeto político-militar sionistas desde a tomada das Colinas de Golã, o "modelo" perfeito para o acontece agora no sul do Líbano em relação ao Rio Litani “e além”, no dizer atualizado de Netanyahu.

Existem três semelhanças fundamentais nesse "destino histórico": 1. A Geopolítica da Água (Hidropolítica)

Assim como o sul do Líbano tem o Litani, o Golã é a principal fonte de água doce para Israel. Controlar Golã é dominar as nascentes do Rio Jordão e o Mar da Galileia (Lago Kinneret). Quem tem o Golã, controla a torneira de Israel.

O Rio Litani, ao Sul do Líbano, a 30 quilômetro da fronteira Norte com Israel, despeja milhões de metros cúbicos de água doce no Mediterrâneo. Para um projeto de expansão territorial e agrícola (como o dos colonatos), capturar essa água é a diferença entre um deserto e uma região produtiva.

A Justificativa da "Segurança” tornou a ocupação em do Golã em anexação. Israel ocupou a área em 1967 alegando que a Síria usava o planalto para bombardear comunidades israelenses abaixo. Em 1981, anexou o território unilateralmente.

A justificativa no Litani é o Hezbollah. Ao destruir vilarejos, explodir pontes e expandir a zona para além do Litani, o movimento migra de uma "operação militar" para uma ocupação territorial de longo prazo, repetindo o roteiro do Golã.

Para consolidar o controle da água e da terra, a estratégia costuma ser o despovoamento permanente. No Golã, a grande maioria da população síria foi expulsa ou fugiu em 1967. No sul do Líbano, as ordens de evacuação em massa e a destruição impiedosa e continuada da infraestrutura tornam a volta dos civis libaneses quase impossível.

Sem habitantes locais, a área fica livre para a exploração de recursos e, eventualmente, para a instalação de postos avançados de colonização.

Tanto a Síria (no Golã) quanto o Líbano (no Sul) acabam perdendo soberania sobre seus recursos naturais mais valiosos sob o argumento da "necessidade militar defensiva do Estado de Israel". No final das contas, o mapa do "Grande Israel" se desenha onde a água corre e onde a topografia oferece vantagem estratégica.

Para as grandes potências, a soberania do Líbano ou a água do Litani são "problemas locais", enquanto o comércio global é uma questão de sobrevivência.

As artérias do capital, o Estreito de Ormuz (fertilizantes, gás, petróleo) e o Canal de Suez/Bab el-Mandeb (logística global) são os pontos onde o mundo "sente dor" no bolso. Se o fluxo de navios para a inflação explode em Nova York, Londres e Pequim...

O "Sacrifício" do Líbano. Enquanto Israel mantém esse aspecto da guerra contido como conflito em terra firme (mesmo expandindo para o Líbano), o impacto sistêmico na economia global é administrável. Por isso, a tolerância implícita: "façam o que precisarem em terra, desde que as rotas marítimas continuem abertas".

Muitas vezes, a liberdade que Israel recebe para redesenhar suas fronteiras ao Norte é o preço que o Ocidente paga para que Israel não escale um ataque direto às infraestruturas iranianas, o que resultaria no fechamento de vez o Estreito de Ormuz pelo Irã.

No fim das contas, a geografia dos recursos (água e terra no Líbano) está sendo devorada enquanto a geografia do fluxo (canais e estreitos) é protegida. O Líbano, fragilizado e sem peso econômico global, acaba sendo o elo mais fraco dessa corrente.

O Irã não é apenas um "eixo de resistência"; é também um Estado com uma economia que precisa respirar, e sabe que travar o Estreito de Ormuz é um "botão de autodestruição" econômica para si mesmo.

O Irã é um dos maiores importadores mundiais de trigo e milho. Se fecha o tráfego marítimo para punir Israel ou o Ocidente, cortam o próprio suprimento de comida. A inflação interna já é altíssima; um bloqueio poderia ser estopim para revoltas domésticas incontroláveis.

O regime iraniano sobrevive da venda de petróleo e gás (principalmente para a China). O caos no Golfo Pérsico interrompe o fluxo de caixa que mantém o governo e as próprias milícias que financiam no exterior (Hezbollah, Houthis).

Isso explica porque a Comunidade Internacional se sente "confortável" em deixar Israel avançar sobre o Rio Litani e manter ocupadas Colinas de Golã:

Avaliam que o Irã vai gritar, mas dificilmente “suicidará” sua economia travando Ormuz por causa da água do Líbano ou a autonomia Palestina em Gaza e na Cisjordânia.

Netanyahu lidera o projeto político-militar sionista e aproveita o "equilíbrio de medos" para consolidar o Projeto Grande Israel na prática, sabendo que a prioridade global é o preço do barril e a logística de grãos, e não o desenho das fronteiras terrestres libanesas, sírias, palestinas.

No fim, palestino e libaneses acabam sendo a moeda de troca na moita. Israel expande seu domínio hídrico e territorial, o Irã mantém suas rotas de exportação abertas para não colapsar internamente, e o mundo finge que não vê as anexações de fato porque o fluxo continua operando nos canais de Suez e Ormuz.

Se os impérios antigos (Roma, Otomanos) conquistavam por marcha territorial e os coloniais (século XIX) por extração de matéria-prima, o neoimperialismo opera por controle de fluxos e pontos nodais.

A lógica atual terceiriza a fronteira. O "império" moderno (liderado pelos EUA e grandes blocos econômicos) não precisa administrar o território libanês ou sírio diretamente. Ele permite que aliados regionais fortes, como Israel, façam a "limpeza" e o controle geográfico (água, terra, zonas de exclusão), desde que os canais globais (Suez, Ormuz) permaneçam abertos para o capital.

O neoimperialismo sustenta-se na capacidade de decidir quem morre no escuro (o Líbano, longe das câmeras e do interesse econômico) e quem é protegido (as rotas de gás, petróleo, grãos e fertilizantes que alimentam o sistema). É um imperialismo seletivo, das commodities.

Impõe-se a sobrevivência pelo pragmatismo. Mesmo o Irã, "adversário do sistema” está preso a ele. E sustentam o neoimperialismo porque dependem da mesma infraestrutura global para importar comida e exportar energia. Ninguém quer derrubar o tabuleiro; todos querem apenas uma fatia maior dele.

Não confunda judaísmo com sionismo, mas tenha em mente que a ideologia dominante em uma sociedade é a ideologia da classe que domina essa sociedade. 

O Sionismo Político é um movimento nacionalista moderno, surgido no final do século XIX, enquanto o Judaísmo é uma tradição religiosa e ética milenar.

Muitos judeus (incluindo grupos ortodoxos e pensadores humanistas) criticam o projeto do Grande Israel (Eretz Yisrael Hashlema), argumentando que a ocupação territorial e o expansionismo militar entram em conflito com os valores espirituais e morais da fé judaica.

Separar o projeto de Estado da identidade religiosa é o que permite entender por que essa expansão sobre o Litani ou o Golã é uma estratégia de poder político, e não um consenso teológico.

Para entender o projeto político do Grande Israel é essencial olhar para a ala revisionista do sionismo, liderada por Ze'ev Jabotinsky, que deu origem ao atual partido Likud (de Netanyahu).

Jabotinsky, o fundador ideológico do projeto, escreveu The Iron Wall", O Muro de Ferro, em 1923.  No ensaio publicado antes da existência de um estado de judeus, ele defendia que os árabes nunca aceitariam a partilha da Palestina voluntariamente. Portanto, a colonização judaica deveria ocorrer sob a proteção de uma força armada inabalável (o muro de ferro) até que os árabes desistissem de resistir.

O projeto original do "Revisionist Zionism" reivindicava ambas as margens do Rio Jordão (incluindo a atual Jordânia). O Rompimento com o Mandato Britânico tem raízes no White Paper de 1939, a imposição da a limitação à imigração judaica para a Palestina, com o objetivo de acalmar as revoltas árabes.

Menachem Begin, que viria a ser primeiro-ministro de Israel, liderava a organização paramilitar Irgun, quando deflagrou "The Revolt" contra o Mandato Britânico em 1944.

Para os revisionistas, os britânicos se tornaram um obstáculo ao "destino histórico" de um estado judeu em toda a extensão da Palestina mandatária. Eles usaram táticas de guerrilha e atentados terroristas (como o do King David Hotel) para forçar a saída britânica.

Inicialmente, nem todos os judeus apoiaram essa via política que incorporava o terrorismo e o expansionismo como objetivo. Grupos de judeus ultraortodoxos tornaram-se oposicionistas à existência do Estado de Israel sustentando que um Estado judeu soberano como o proposto pelo sionismo político seria uma violação de juramentos bíblicos. Os haredim se articulavam em torno do "Haredi Anti-Zionism", o Antissionismo Haredi, propagando que um Estado de Israel só deveria ser estabelecido com a vinda do Messias.

Grupos como Neturei Karta e Satmar Hasidism argumentam que a criação de um estado judeu por mãos humanas e força militar é uma rebelião contra a vontade divina.

O destacado intelectual religioso israelense Yeshayahu Leibowitz, tornou-se um crítico ferrenho crítico da ocupação de 1967, chamando-a de "messianismo político" que corromperia o judaísmo.

Intelectuais judeus como Hannah Arendt (que cobriu o julgamento de Eichmann) e, mais recentemente, Norman Finkelstein e Gideon Levy, alertaram para o perigo de um povo traumatizado repetir padrões de opressão contra outros para garantir sua própria "segurança". Todos argumentaram que o "nunca mais" deveria ser universal, e não apenas para um grupo.

No contexto atual (especialmente em Gaza após outubro de 2023), a África do Sul levou Israel ao Tribunal Internacional de Justiça (CIJ) acusando-o de genocídio. O argumento é que a destruição sistemática de hospitais, escolas, sistemas de água e o bloqueio de ajuda criam condições de vida destinadas a destruir o grupo físico, parcial ou totalmente.

Ao sugerir que os palestinos podem "sobreviver em qualquer lugar" (Egito, Jordânia, América Latina), o projeto sionista nega o direito de autodeterminação e o vínculo histórico deles com a terra. É a ideia de que "são apenas árabes", e como há muitos países árabes, eles poderiam ser absorvidos por outros, deixando a Palestina livre para o "povo escolhido".

O que vemos em Gaza e no sul do Líbano hoje é a criação de condições inviáveis de vida. Destruir hospitais, escolas e o acesso à água (como discutimos nos casos de Gola e Litani) não é apenas um ato de guerra; é uma mensagem: "Aqui não há futuro, saiam". É o incentivo à migração sob bombardeio.

Antes da "Solução Final" (o extermínio), o regime nazista chegou a considerar o Plano Madagascar, que pretendia expulsar e transferir todos os judeus da Europa para aquela ilha na África.

A lógica era a mesma: "eles podem existir, desde que não aqui". A substituição de uma população por outra através da transferência forçada é um crime de guerra sob o estatuto moderno, mas é uma ferramenta antiga de impérios e nacionalismos extremos.

Para o projeto do Grande Israel, a terra (e sua água) é um ativo estratégico. A população nativa é vista como um "obstáculo demográfico". Se eles podem ser "diluídos" em outros países, o "problema" desaparece sem a necessidade formal de um extermínio, mas com o mesmo resultado prático: o desaparecimento de uma cultura e de um povo de seu território de origem.

Essa visão de que "o outro" é deslocável e irrelevante para a paisagem é o que sustenta a expansão das fronteiras desde 1948.

No fim das contas, a estratégia de "dispersão" e "inviabilização da vida" no território (seja no Líbano, na Palestina, na Síria) conta com o tempo e a fadiga da comunidade internacional encostada à parede pela geopolítica bruta do fato consumado.

Enquanto o mundo discute a moralidade das ações ou monitora os movimentos em tempo real, as escavadeiras avançam, as vilas são demolidas, as pontes e estradas explodidas, as fontes de água cercadas, as pessoas mortas às centenas, aos milhares...

A história mostra que o que hoje é um "escândalo internacional", em dez ou vinte anos vira uma "questão complexa e consolidada". Foi assim com as Colinas de Golã e com os grandes blocos de colonatos na Cisjordânia.

Ao destruir a infraestrutura básica (escolas, hospitais, redes de água), cria-se um cenário onde "voltar" não é mais uma opção viável para as famílias. A migração para o Paraguai, Egito ou Europa deixa de ser uma escolha política e vira uma questão de sobrevivência biológica.

Para o projeto do Grande Israel, a opinião pública global é um ruído administrável, desde que o controle físico da terra e da água seja garantido.

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