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27 julho, 2013

da humana escrita, em nome de quem?













Se "A" palavra foi escrita,
a escreveu quem a ouviu?
Se livre-interpretação a sucedeu,
onde mesmo erro eu
por supor que tal fato não se deu?

17 setembro, 2009

Estamos sós, apenas nós

retrato de maria jose cardoso - joão fahrion - 1956

Acorde desse sonho
Seque essas lágrimas
Hoje devemos escapar

Apressa-te, veste a roupa
Antes que nos matem de rir
O inferno parece explodir

Respire, amor: tão intensa dor
Faz o sangue ferver a seguir
Porque essa unha se quebrou

O diabo já não é nosso vizinho
Pro andar de baixo se mudou
Nem mais querem deus por fiador

Tanto saber pode nos sufocar
Na paz eterna dos remansos
Agora somos sós, apenas nós

07 outubro, 2007

UMA TRAGÉDIA GAÚCHA



Luiz Pilla Vares

Conheço Adroaldo Bauer Corrêa há mais de 20 anos, quase 30. Nosso encontro primeiro foi na redação do jornal onde ambos trabalhávamos. Ele era um redator competente, mas o que primeiro nos aproximou foram as lutas sindicais, num momento único de nosso sindicato, quando, creio que pela primeira vez, tivemos efetivamente um movimento de massas na luta pelos direitos profissionais. Depois, surgiu a identificação política nas idéias da esquerda socialista...

Mas eis que surge o Adroaldo Bauer escritor. Como jornalista, ele já tinha dado passos nesse sentido. Sabia manejar com diligência a matéria-prima de seu ofício que são as palavras e as frases. Não sei se por nosso longo relacionamento, em que partilhamos solidários vitórias e derrotas, Adroaldo Bauer me distinguiu para ser o apresentador de sua novela que agora chega aos leitores brasileiros, O Dia do Descanso de Deus. E, nesses assuntos, sou muito exigente. Disse-lhe claramente que, apesar de nossa amizade longa e, felizmente, duradoura, eu iria primeiro, sem nada lhe prometer, ler o texto. Se gostasse, escreveria. Se não, eu, com toda a franqueza, recusaria a honraria. Mas aí está O Dia do Descanso de Deus, que li com prazer como deve ser a verdadeira relação de um leitor com a obra que tem em sua frente.

Pois a novela que agora se edita tem todos os ingredientes capazes de tornar a leitura agradável e prender o leitor até o fim. O cenário é o Rio Grande do Sul, num vai e vem entre o interior do Estado e Porto Alegre. O tempo, de certa forma indefinido, são os anos de chumbo, que nunca são referidos diretamente, mas que pairam como nuvens cinzentas sobre todo o transcorrer da novela. As personagens são familiares para quem vive no Rio Grande do Sul, mas que nunca caem na caricatura meramente regional. Todas são problemáticas e universais, desde Romão, a principal, que passa grande parte da obra como uma sombra a decidir o destino dos demais participantes, até Domício, o filho enlouquecido do latifundiário, a quem cabe ser o detonador do conteúdo trágico desta novela.

O mais encantador, porém, no enxuto texto de Adroaldo Bauer, é que não se trata de uma novela linear, com uma temporalidade exata. A história tem idas e vindas, sem que se transforme em um quebra-cabeças que muitas vezes se torna, na literatura moderna, uma chatice. Nada disso. A ausência de temporalidade linear contribui para o leitor se apoderar da personalidade e dos dramas de cada uma das personagens e chegar progressivamente ao caminho que conduzirá a um desfecho ao mesmo tempo trágico e reconciliador entre o pai Romão e a filha Laurita. E nessas idas e vindas da temporalidade, a memória não está em segundo plano. Ao contrário, ela é fundamental para a construção das personagens neste contexto fluído em que se constrói a bem elaborada estrutura de O Dia do Descanso de Deus.

Enfim, é uma pena que Adroaldo Bauer tenha se decidido tardiamente pela ficção de fôlego. Mas, por outro lado, valeu a espera. Temos agora, diante de nós, uma magnífica tragédia que vai enriquecer a nossa literatura. Desde já estou ansioso para ver nas livrarias e, como pretende o autor, nas bancas de jornais e revistas, O Dia do Descanso de Deus.

Aliás, um longo dia, que dura todo o tempo da novela. Valeu a espera por Adroaldo Bauer escritor.

Adroaldo Bauer

02 setembro, 2007

O dia do Descanso de Deus tira o sossego de leitora

Vida de correria, falta de tempo, exposição constante ao cenário imagético da vida cotidiana...
Quantos são os motivos que nos afastam hoje da ritualidade própria da leitura, que demanda do leitor disposição para se implicar com a “quietude” do livro.
Mesmo sendo amante inveterada de literatura, como não estou imune a este contexto, vinha há algum tempo experimentando a dificuldade de me envolver com este objeto de desejo.
E, diante da culpa por entregar-me ao ócio da leitura que interrompe o ritmo frenético do cotidiano, não hesitava em declinar deste prazer...
Afinal, “Deus ajuda a quem cedo madruga”...
Mas eis que, como que caído do céu, o livro de Adroaldo, que conheci por acaso no Overmundo (bendito acaso!), me devolveu o direito à preguiça.
“O dia do descanso de Deus”. Se Deus descansa, por que eu, pobre mortal, não poderia também descansar?
Mal sabia eu que à preguiça divina sobrevém a insídia pérfida do diabo.
Eu aqui de livro nas mãos deliciando-me com a novela - deixando de lado a rotina escravizante do dia-a-dia – enquanto as criaturas da novela se lascavam num redemoinho de tragédia.
Seria isso justo?
Tanto não seria, que o descanso tão esperado não me foi dado...
Magistralmente fabricada, a trama não me concedeu sossego: a ausência de temporalidade linear exigiu de mim atenção e esperteza; o suspense me deixou tensa; o envolvimento com os dramas das personagens tirou-me o fôlego.
Adroaldo você não me deu descanso e, ainda assim, não me resta outra coisa senão lhe agradecer de coração.
Seu livro me devolveu o que Ítalo Calvino considera como faculdade humana fundamental: a capacidade de fazer brotar - do alinhamento de caracteres alfabéticos negros deitados sobre o papel - a sensibilidade e a imaginação, ingredientes sem os quais a vida não passa de uma página em branco.

Me chamam de Ize.
Mas meu nome é Maria Luiza.
Como a tradição me constitui, por parte de mãe sou Magalhães Bastos, e por parte de pai Oswald.
Sou carioca da gema: nascida, criada e vivida em Ipanema. Ler é uma de minhas predileções. Mas também gosto de passear, de ir à praia, de tomar chopp, de ouvir e contar histórias, de dançar, de conviver com gente, de me implicar com seus casos.

Também gosto de ser professora, profissão que desempenho na Faculdade de Educação e no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Fiz o doutorado porque pesquisar é outra coisa que adoro fazer.
E, coerentemente com minha paixão pela leitura, essa é minha área de interesse no campo do magistério e da pesquisa.
Ia me esquecendo de dizer que sou “overmundana” e que essa condição fez de mim o que mais importa nesse perfil: sou leitora de Adroaldo Bauer.

29 julho, 2007

Fala a pessoa que leu

Amei a "saga do Romão"...
Eu consegui, com tua descrição, "ver" todos os personagens...
Foi uma dilícia saboreá-lo nesse friozinho danado (que me lembrou o daí), tomando um cházinho, envolta numa manta e aconchegada na poltrona.
Mais ainda: muitas expressões sulinas lembraram meu querido pai...
O pai dele era gaúcho e então sobraram palavras que ele repetia como guaipeca por exemplo...
Adorei que todos os tatôlos tinham o mesmo nome...
Não é original, mas ao menos não dá trabalho pra lembrar, né?
Parabéns!

Ná Leão - São Paulo

15 maio, 2007

Juliaura Ubá entrevista Adroaldo Bauer

A novela O dia do descanso de Deus, primeiro livro de Adroaldo Bauer, está impressa.
Será lançada no fim do mês, dia 31, em sessão de autógrafo, na Palavraria Livraria – Café, em Porto Alegre, a partir das 19horas.
O autor já tem um debate marcado com leitores para o 26 de junho, no Plenarinho da Assembléia Legislativa.
Nesta entrevista exclusiva com o autor que apresento em primeira mão no Overmundo, convido a viajarem pela novela deste novo escritor (o primeiro livro a gente não esquece).
Não vou fazer lide ou nariz de cera para não alongar e ocupar muito espaço na página.
Como dizem as personagens de Adroaldo Bauer: Mãos à abóbora! Vá de retro capataz!

Juliaura Ubá – Quem te conhece um pouco sabe que és um sujeito que faz política, fez política nos últimos 30, 40 anos (eu nem pensava em nascer), tem política no enredo da novela.


Adroaldo Bauer – Tem, como tem política na vida de qualquer pessoa, em qualquer tempo, seja ela engajada ou não. Se não faz, fazem pra ela, nem sempre por ela. As personagens existem num tempo entre 1950 e 1970, por aí. É ficção, mas tem a ver com coisas reais, de pessoas comuns, que se amam, se odeiam, até se matam. Mas a personagem principal é a Língua Portuguesa. Eu tenho certeza que não está tudo nos conformes e pela ordem exata, mas tentei ser o mais fiel ao que se dizia e se falava em Português aqui no rio Grande do Sul, num ambiente em transição do rural para o urbano, nas cidades que já iam se modificando para assumir o perfil que têm hoje. Antes, portanto, da ocupação cultural que estamos vivendo. Então, a política aí é também de resistência, acredito.

Juliaura - Por que uma novela?
Adroaldo – Nem sei bem porque. Encafifei com uma frase. Tava trancado num ônibus, num fim de tarde quente. Comecei a suar frio, ter enjôos. A frase é não tenha medo de nada. Duas negativas em oito palavras. Redundância. Pensei que podia dizer, não tenha medo. Achei comum. Cheguei a não tema. Que é o presente. Então, se fose contar uma história, teria que ser menos jornal, mais literário. Encontrei: nada temia. A mesma negativa em duas palavras. Aí dei um nome pro sujeito.

Juliaura – No ônibus?

Adroaldo – É, encontrei a frase e o nome do sujeito ainda no ônibus. E casa, deu vontade de escrever. Fiz três capítulos numa sentada, à mão, caneta e bloco de repórter. Aí apareceram outros personagens. Não consegui dormir direito com aquela multidão comigo na cama.

Juliaura – Que multidão?

Adroaldo
– As personagens citadas de passagem começaram a me atazanar cobrando falas, função, papel para elas. Isto era o meio da semana. No fim de semana, cheguei a 12 capítulos.

Juliaura – O enredo estava bolado antes? A idéia, a vértebra da história tinha alguma anotação anterior? Tu vinhas acalentando essa necessidade de escrever a novela há muito tempo?
Adroaldo – Não, filha, se permites o tratamento.

Juliaura – Pra mim é uma honra, ainda que até possa ser tua neta (risos)
Adroaldo – Menos, Juli... Eu não tinha planos de escrever uma novela. Acho mesmo que e uma novela o estilo que acabou resultando. Eu sempre escrevi. Fiz a melhor redação sobre o Dia da Arvore da escola no terceiro ano primário. Fiz alguns versos pro Jornal O Saci, naquela escola. Publiquei alguns versos e contos no jornal O Julinho, em 1972, uma resistência possível que ajudou a reabrir o grêmio estudantil fechado pela ditadura. Rabisquei muito guardanapo em boteco. Publiquei também no Quadrão, que era um suplemento do jornal Folha da Manhã, que os donos fecharam na maior cara de pau em 1980. Mas eram sempre peças curtas, em verso ou prosa. Contos ligeiros, versos rápidos. Mais recentemente fazia resumos de livros e apresentação deles em blogs meu ou de outros e no jornal Fala Brasil, mas isso é muito recente, de uns dois anos para cá.

Juliaura – És poeta também?

Adroaldo – isto é bondade dos amigos. Faço algumas rimas, brincadeira com a sonoridade das palavras. Não sei fazer com métrica. Mas tava dizendo que não tinha roteiro, nem plano de escrever algo parecido com O dia do descanso de Deus.

Juliaura - Então como foi isso?

Adroaldo – Não sei bem direito. Foi sendo, e sendo foi feito. Mostrei os três capítulos pra minha companheira, a Cristina. Ela gostou e disse pra eu continuar a história. Daí eu sentei pra tentar e saíram os 12 capítulos naquele fim de semana que já falei. Então eu não dormia mais sozinho com a Cris. Era aquela multidão se enroscando e mim a noite inteira. Cheguei a 25 capítulos.

Juliaura – Dormindo? Sonhando?
Adroaldo – Não sei bem como é o nome disso. Não é sonho. Daí dei um intervalo de alguns dias. Eram as festas de fim de ano. Daí em janeiro eu me atraquei no computador para dar um fim na história. Teve um momento em que havia três hipóteses pro rumo da história.


Juliaura
– Três histórias em uma só?

Adroaldo – Até pode ser, mas prefiro acreditar que eram três finais possíveis. Ainda tem umas idéias sobre os outros dois rumos no Epílogo. Talvez até uma continuação...

Juliaura – Ah! Aquilo que chamam de trilogia...
Adroaldo – Já falei que nem tinha idéia de que pudesse fazer o livro e tu me vens com trilogia, guria. Isso é muita responsabilidade. Mas que tem personagem querendo, isso tem. Essa gente é impossível, quer mais, sempre.

Juliaura – Mudando de saco pra mala, por que estás editando por conta? É uma edição de autor? Estás montado na grana, é isso?
Adroaldo – Antes fosse, guria. Continuo devendo aos banqueiros, vivendo do salário do mês. Tu ainda não tens filho ou filha, não é fato? Imagina o que é ter a criança e deixar ela peladinha na incubadora, esperando sabe-se lá o quê? É bem isso que acontece com autor de primeira viagem, pai ou mãe. A gente quer pegar a criança, quer beijar, quer vê-la e que a vejam. Pra gente ela é a mais bonita. Ou tanto quanto as outras. E ninguém se apresentou para o batismo ou sequer para olhar a recém-nascida.

Juliaura – Mandastes originais para as editoras? Oferecestes na Internet, tem ali umas firmas de e-book?
Adroaldo – filha, a novela é do milênio passado e eu também sou mais de lá, ainda, que de cá. E, se tem uma situação da qual eu não gosto é de pedir penico. Mercado editorial eu compreendo, não quero discutir, mas não engulo coisas do tipo: estamos sem agenda para o momento. Ora, isso é resposta? O momento é a única situação real da existência. Quando termina esse momento. No filme Inteligência Artificial, de que eu gostei muito e recomendo, um momento dramático, pode-se dizer, durou dois mil anos. Um momento terno, prazeroso, feliz, durou 24 horas. Eterno enquanto dure, nos recomendou Vinícius de Moraes. Então eu emputeci, sondei uns amigos aqui, uns conhecidos ali, e decidi fazer com o Shimite, da Proletra. É edição do autor. Escritor pelado e metido a besta, se quiseres.

Juliaura – E a história, o que é? Qual é a mensagem? E o final, ah, ah, ah?
Adroaldo – Já dá pra saber o fim. Está impressa, vai ser lançada em 31 de maio na Palavraria Livraria-Café. O preço promoção de lançamento será R$ 20,00. É comprar e abrir a página 103, que tá lá. Na 104 tem o epílogo. Não aconselho muito essa técnica, porque pode ser que a curiosidade se intrometa e tu tenhas que ler todo o livro para saber porque termina assim a história. E melhor ler desde a primeira página da trama. Tem três capítulos dela, mais a apresentação do meu amigo e colega de jornalismo Pilla Vares, no meu blog, o Retorno Imperfeito, endereço http://coisaegente.blogspot.com e noutros lugares, no Ovemundo, que eu fiquei sabendo de tuas peraltices que resultaram em publicações por aí, até no Shvoong, já me contaram, é isso.

Juliaura – Pois é, li a apresentação do Pilla Vares e vi que ele te chama de velho que demorou pra escrever literatura (risos). Amigão, ele, ãh?
Adroaldo – respeito e bom e conserva os dente guria. Aliás, lindos dentes, menina, quase tão bonitos como os teus olhos. Bem que lembras a Laurita, uma das minhas personagens. Mais pela insolência que pelo feitio. O Pilla é bem assim como tu disseste. É verdadeiro. Ele lamenta de fato que tenha eu resolvido tão tarde dedicar-me a literatura, a um escrito de fôlego. Primeiro eu quero agradecer também aqui, porque já o faço no livro, a gentileza dele me apresentar. E principalmente por ser do jeito que foi. Segundo, porque ele e mais alguns sabem que não era possível eu escrever assim antes pelas tarefas que eu mesmo me impunha no trabalho político e profissional. Ficou pra hora que deu. Ainda bem que ainda me restam mais uns 50 anos de vida e, agora que eu já sei como se faz, vou continuar fazendo. É como coçar. Começou, não pára. Como eu te disse antes, tem personagem cobrando continuação. E, aí eu me recordei de que tinha uns dois capítulos pensados, resolvidos na cabeça, como se diz, mas ainda não escritos de uma outra história que, essa sim, pensei a respeito dela em 1994, quem sabe não dá uma novela. Tem crime que precisa ser explicado e situação que necessita compreender.

11 maio, 2007

O dia do descanso de Deus

Novela já vendeu 200 exemplares antecipados

A novela O dia do descanso de Deus será lançada em 31 de maio, na Palavraria Livraria-Café. Rua Vasco da Gama, 165, Bairro Bom Fim, Porto Alegre.
O autor espera leitores e amigos para a sessão de autógrafos a partir das 19horas.
Reserve seu exemplar por e-mail: adroaldo@portoweb.com.br


apresentação

Uma Tragédia Gaúcha

Luiz Pilla Vares

Conheço Adroaldo Bauer Corrêa há mais de 20 anos, quase 30. Nosso encontro primeiro foi na redação do jornal onde ambos trabalhávamos.
Ele era um redator competente, mas o que primeiro nos aproximou foram as lutas sindicais, num momento único de nosso sindicato, quando, creio que pela primeira vez, tivemos efetivamente um movimento de massas na luta pelos direitos profissionais. Depois, surgiu a identificação política nas idéias da esquerda socialista...
Não sei se por nosso longo relacionamento, em que partilhamos solidários vitórias e derrotas, Adroaldo Bauer me distinguiu para ser o apresentador de sua novela que agora chega aos leitores brasileiros, O Dia do Descanso de Deus.
E, nesses assuntos, sou muito exigente.
Disse-lhe claramente que, apesar de nossa amizade longa e, felizmente, duradoura, eu iria primeiro, sem nada lhe prometer, ler o texto. Se gostasse, escreveria. Se não, eu, com toda a franqueza, recusaria a honraria.
Mas aí está O Dia do Descanso de Deus, que li com prazer como deve ser a verdadeira relação de um leitor com a obra que tem em sua frente.
Pois a novela que agora se edita tem todos os ingredientes capazes de tornar a leitura agradável e prender o leitor até o fim.
O cenário é o Rio Grande do Sul, num vai e vem entre o interior do Estado e Porto Alegre. O tempo, de certa forma indefinido, são os anos de chumbo, que nunca são referidos diretamente, mas que pairam como nuvens cinzentas sobre todo o transcorrer da novela.
As personagens são familiares para quem vive no Rio Grande do Sul, mas que nunca caem na caricatura meramente regional. Todas são problemáticas e universais...
A história tem idas e vindas, sem que se transforme em um quebra-cabeças que muitas vezes se torna, na literatura moderna, uma chatice.
Nada disso.
A ausência de temporalidade linear contribui para o leitor se apoderar da personalidade e dos dramas de cada uma das personagens e chegar progressivamente ao caminho que conduzirá a um desfecho ao mesmo tempo trágico e reconciliador...
Temos agora, diante de nós, uma magnífica tragédia que vai enriquecer a nossa literatura. Desde já estou ansioso para ver nas livrarias e, como pretende o autor, nas bancas de jornais e revistas, O Dia do Descanso de Deus.
Aliás, um longo dia, que dura todo o tempo da novela.
Valeu a espera por Adroaldo Bauer escritor.





Capítulo 1


Romão nada temia. Tipo calado, até taciturno.
Consta que rira uma vez.
- Ainda menino, diziam alguns velhos que o conheceram antes que passasse a usar chapéu. Um de abas curtas e copa baixa. Enterrado na cabeça até onde se plantavam sobrancelhas negras, espessas.
- Foi uma brincadeira, molecagem, abrandava Alarico, amigo de Romão e dono de um cachorro manco que, atiçado ou desatinado, se botou um dia na jovem Florzinha até arrancar-lhe as saias. A de cima e a de baixo, na frente do criaredo, luz do sol a pino, no meio da rua. Romão não conteve o riso. Pouco, bem que se diga. É verdade que logo cedeu à vergonha por zombar da desgraça alheia e fechou-se.
Coragem em Romão era sobrenome. Ele não assinava, mas o povo sabia. Assinatura do tipo é marca, se faz, se repete, não muda mais. Não é bengala, nem muleta tomada emprestada. Faz parte do corpo, constitui o ser. Romão nada temia. Só cuidava da vida não ser pega de surpresa pela morte. Cuidava tanto que não descuidava nem da própria sombra. Cuspia no chão sobre a sombra do corpo, sem se mexer. Era para saber se nela não se escondia a morte, ouviram-no justificar a esquisitice uma vez.
Pois o tal gesto foi mal interpretado de uma feita. Achou um cuera de especular da razão. Intimou no grito. Sem resposta, desacatou Romão. Grosseria berrada na calmaria morna do lusco-fusco num boteco. Buliu em vespeiro. Houvesse trilha seria em dó de contrabaixo com arco de crina de cavalo e corda de tripa de carneiro. Sem erguer os cotovelos da madeira luzidia de um balcão tosco encerado por dúzias de mangas de flanela, brim ou panos de algodão cru ali escorridos, nem levantando os olhos de sob a aba do chapéu, Romão falou, ainda de costas, fitando o reflexo do desafiante num espelho enferrujado da prateleira de bebidas atrás do balcão:
- Valentia não é coisa que se cheire ou bebida barata que se arrota em boteco.
- Nem covardia! Urrou o cuera, no tom de desfeita, puxando da cintura uma pistola, disparando um tiro.
Um jorro de sangue descreveu leve curva por sobre o reflexo do homem no balcão até uma cruz efêmera formada pela sombra de ambos no assoalho. Romão percebera o sujeito às suas costas sacando uma pistola, girou felino o próprio corpo sobre os saltos da bota. Projetou veloz o fio da navalha. Riscou de vermelho, fora a fora, o pescoço do desafeto. Não se ouviu mais som qualquer, após o corpo desabar frouxo os costados no piso gasto do bar.
Romão bateu de leve os saltos no assoalho de madeira, anunciando despedida. Saiu a passo. Lento e firme. Parou um momento no meio da rua sob o sol que banhava morno o fim de tarde. Sem se virar para o que já lhe parecia distante passado, cuspiu novamente na própria sombra.


Capítulo 2

Uma outra vez Romão se vira assim tão ou mais desafiado. Era linda a morena. Das que param o trânsito mesmo. Das que dão torcicolo em marmanjo. Andar macio, um cuidado singular em saltos altos e finos, meneios leves e sensuais das cadeiras formadas na medida certa. Virando suavemente a cabeça ao passar por ele, sorriu e piscou rápido. Naquela vez alguém poderia ter visto Romão tremer. Isto se a testemunha fosse atenta a impacto tão fulminante quanto breve. Ele sentiu o corpo inundado por calor úmido de um mar verde jamais visto. Os olhos da morena racharam a crosta áspera de um Romão até ali invicto. E o puseram sem norte feito caíque preso em redemoinho de lagoa. Sem fluxo coerente de corrente, ficou-lhe o coração exposto, acelerado, aos pulos.
Acabara de cuspir na sombra e se deparou com a empreitada. Das grandes. Pensou até que nunca antes experimentada por alguém em tanta intensidade. Aquilo era o que era. Fosse amor, fosse paixão. Coisa de Deus ou coisa do Cão. Divina, a morena que prendeu Romão, o fez em puro recato, mesmo belíssima mulher.
- Prova provada de que é possível ser linda sem cair na vida, cochichava Florzinha, espantando cachorros imaginários de perto de si com gestos estabanados dos braços esgrimindo uma vassoura, o que começou a fazer já quase adulta, de uma certa feita, e nunca mais parou.
Divina e Romão casaram e logo tiveram filhos. Uma era menina. Linda igual à mãe, diziam todos que viam Laurita, como a vida batizou. Geniosa, Laurita da Divina era num tempo sonho doce, devaneio. E, já em seguida, “açoite da alma, cravelha a esticar as cordas da razão”, descreveu certa vez um repentista homenageando a mulher que desabrochava na menina.
- Isso é prosa mole de louco ou apaixonado, castigava Florzinha, agitando braços e vassoura. Como se pudesse alguém ser um sem ser outro, arrematava aos próprios botões.
Já, os meninos de Romão, trigêmeos, pareciam gente comum. Os filhos de Romão – e a filha! Esbravejava sempre uma Laurita exasperada – foram crianças fortes, que ainda tiveram sarampo, mas de resto sadias, estudiosas, endiabradas, às vezes todas, não só Laurita. E também muito felizes...
Até o dia da desgraça.



Capítulo 3

Com mais de 30, porque de mulher bonita não se sabe a idade, Divina foi morta a facadas. Parecia dia de descanso de Deus.
- Foram quatro homens, Romão. A pobrezinha não se deixou violar, mas sangrou até morrer, dos ferimentos duma quantidade enorme de golpes de faca. Jesualdo, o delegado chamado a cuidar do caso, dava o triste relato, acabrunhado e ainda de pé frente ao cadáver da morena Divina.
Romão, chegado ali às pressas por convocação da tragédia, era o mapa da dor. Face crispada, inerte, mãos apertadas em punho terminavam braços caídos ao longo do corpo. Alguém jura que viram lágrimas a marejar-lhe os olhos. Mas não prova. Nem se sabe que Romão tenha jamais falado disto a alguém.
A história, no entanto, é contada assim desde o começo e repete, repete, vira verdade maior que o fato.
- Chorar não muda o homem, é certo, mas lhe mostra a alma na inteireza, a mãe lhe dissera da vez em que caíra feio do lombo do primeiro potro que fora montar em carreira e lanhou costas, cabeça e pernas no pedregulho da cancha reta.
- Estropiado, mas vivo e pronto pra outra, saudou Alarico, ajudando o menino Romão a levantar e sacudir a poeira que se misturava a finos fios de sangue na camisa nova de flanela xadrez amarelo e preto.
Dor pela morte da mulher adorada, raiva pelo anseio de justiça e amargosa mágoa pela reparação impossível, suspeitava Jesualdo.
Por muitos anos o policial remoeu o caso, que investigou nos limites da lei. De outras maneiras, Romão foi quem cuidou.
Testemunhas contaram sobre “uma camioneta azulona” com os vidros escuros levantados, em desenfreada carreira, rumo à saída da cidade. Em visita a Romão para um mate, naquele que seria marcado como o dia da desgraça, um amigo contou a ele da farra de quatro jovens bebendo cervejas e fazendo estardalhaço, alucinados no bar de seu restaurante do posto de gasolina da estrada.
- Tem umas poucas horas antes do assassinato da Divina que isto se deu, contou também ao delegado, acrescentando que pareciam muito jovens. E de fora, especulou, considerando prova da suspeita os moços terem feito o pagamento da despesa de um pequeno conserto na camioneta com dinheiro e do combustível e das bebidas com cartão de crédito.
- Eu vi de longe e até achei estranho a tal camioneta parada no meio da rua, de porta aberta, ninguém dentro, na frente do beco. Não atinei naquela hora, que não sou de cuidar além da minha vida e dos cachorros, contou ao delegado uma Florzinha estranhamente calma, olhar cravado no corpo já sem vida da amiga Divina.
Falava ao delegado como se repetisse uma gravação sem ambiente, a voz dura, gelada, embora o calor ainda intenso remanescente de um dia escaldante. A contenção da mulher lhe pareceu deslocada, mas Florzinha era mesmo estranha, justificou de imediato o policial.
- Eram quatro. Entraram rápido no carro. Saíram correndo feitos o capeta fugindo da cruz, levantando poeira e fumaça, aos guinchos de pneu. Quando cheguei ao beco, ainda vi os olhos da Divina perdendo o brilho. Tão rápido como o sangue brotava por tudo que é lado do corpo da pobrezinha, contou a mulher.
Romão sepultou Divina numa cova de chão, em cerimônia simples. Pediu culto breve na capela, que assistiu com as crianças. Mandou botar um mármore rosa suave sobre o túmulo da esposa amada e mãe dedicada, como ficou gravado em verde claro no epitáfio. Lírios brancos esculpidos adornaram a lápide.
Ainda moço, pelos 40, deixou encomendada ao Alarico a venda de tudo o que tinham, acertou com as duas irmãs da Divina mandar a prole com elas para a Capital. Recomendações redobradas especiais a Laurita.
E sumiu.

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