Mostrando postagens com marcador diabo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador diabo. Mostrar todas as postagens

17 setembro, 2009

Estamos sós, apenas nós

retrato de maria jose cardoso - joão fahrion - 1956

Acorde desse sonho
Seque essas lágrimas
Hoje devemos escapar

Apressa-te, veste a roupa
Antes que nos matem de rir
O inferno parece explodir

Respire, amor: tão intensa dor
Faz o sangue ferver a seguir
Porque essa unha se quebrou

O diabo já não é nosso vizinho
Pro andar de baixo se mudou
Nem mais querem deus por fiador

Tanto saber pode nos sufocar
Na paz eterna dos remansos
Agora somos sós, apenas nós

19 junho, 2009

Grande Sertão : Veredas

"O diabo na rua, no meio do redemoinho... viver é muito perigoso, Diadorim disse"

Estando só, me volto para o mar e recordo de Rosa a alertar que a imensidão toda firmeza dissolve porque não há onde acostumar o olhar. A riqueza do telúrico em casamento com o romântico, na revolução do verbo, da sintaxe mesma, coloca a gramática no lugar das coisas por serem refeitas.
Em Grande Sertão : Veredas, João Guimarães Rosa assina o melhor que a literatura brasileira
inscreve na história mundial das letras.
A humanidade de Diadorim, descrita pelo amor despido de pejo por Riobaldo, sendo ambos ainda naquele instante machos aparentes, essa humanidade vai rondar e encafifar o leitor por muitos capítulos enfieirados, fará o leitor rolar o miolo, rever-se pelo inverso, avesso de por dentro até.
Rosa é exigente: procura o leitor inteligente.
Grande Sertão : Veredas é, para redundar... enorme. Excelente para mais e muito.
E tão grande é o prazer de o ler, que cada nova investida revela uma faceta outra, antes não percebida na narrativa. O sertão, um enorme outro mar vai construindo as bravuras e desmanchando as bravatas. Sobram verdades comprovadas pelo desafio da existência, após a queda de sem número de fachadas e a descoberta do vazio como recheio.
O editor adverte: "em todos os seus escritos, João Guimarães Rosa fez questão de usar grafia própria, divergente em muitos pontos da ortografia oficial. Respeitando a vontade do autor, continuamos a publicar sua obra conforme o texto originalmente fixado".
Foi muito além da advertência, o Rosa. Fez das letras um galope, uma jornada inesquecível de sentenças inaugurais, uma original revoada de prágrafos de tirar o fôlego, uma manada primeva de capítulos em estouro pelo ribombo dos trovões que anunciavam a tempestade criativa da obra prima, ainda que à margem o rio parecesse manso, que só é contrariada a impressão se a travessia vai intentada, que é o teu desafio.
E veja-se que a própria história do vernáculo dá razões ao Rosa, que se indo está para a terceira reforma da ortografia oficial. Pode-se pensar que, por alguma via, talvez a burocracia, uma vez, encontre a imaginação e a criatividade espetacular fixada em Grande Sertão : Veredas.
Quem lê, sabe que as coisas todas do mundo, as mais sólidas até, podem ser transformadas.
O que Riobaldo vê acontecer com Diadorim quando...
Bem, penso que há mais muita qualidade na leitura que do próprio autor faças com gosto.

07 outubro, 2007

UMA TRAGÉDIA GAÚCHA



Luiz Pilla Vares

Conheço Adroaldo Bauer Corrêa há mais de 20 anos, quase 30. Nosso encontro primeiro foi na redação do jornal onde ambos trabalhávamos. Ele era um redator competente, mas o que primeiro nos aproximou foram as lutas sindicais, num momento único de nosso sindicato, quando, creio que pela primeira vez, tivemos efetivamente um movimento de massas na luta pelos direitos profissionais. Depois, surgiu a identificação política nas idéias da esquerda socialista...

Mas eis que surge o Adroaldo Bauer escritor. Como jornalista, ele já tinha dado passos nesse sentido. Sabia manejar com diligência a matéria-prima de seu ofício que são as palavras e as frases. Não sei se por nosso longo relacionamento, em que partilhamos solidários vitórias e derrotas, Adroaldo Bauer me distinguiu para ser o apresentador de sua novela que agora chega aos leitores brasileiros, O Dia do Descanso de Deus. E, nesses assuntos, sou muito exigente. Disse-lhe claramente que, apesar de nossa amizade longa e, felizmente, duradoura, eu iria primeiro, sem nada lhe prometer, ler o texto. Se gostasse, escreveria. Se não, eu, com toda a franqueza, recusaria a honraria. Mas aí está O Dia do Descanso de Deus, que li com prazer como deve ser a verdadeira relação de um leitor com a obra que tem em sua frente.

Pois a novela que agora se edita tem todos os ingredientes capazes de tornar a leitura agradável e prender o leitor até o fim. O cenário é o Rio Grande do Sul, num vai e vem entre o interior do Estado e Porto Alegre. O tempo, de certa forma indefinido, são os anos de chumbo, que nunca são referidos diretamente, mas que pairam como nuvens cinzentas sobre todo o transcorrer da novela. As personagens são familiares para quem vive no Rio Grande do Sul, mas que nunca caem na caricatura meramente regional. Todas são problemáticas e universais, desde Romão, a principal, que passa grande parte da obra como uma sombra a decidir o destino dos demais participantes, até Domício, o filho enlouquecido do latifundiário, a quem cabe ser o detonador do conteúdo trágico desta novela.

O mais encantador, porém, no enxuto texto de Adroaldo Bauer, é que não se trata de uma novela linear, com uma temporalidade exata. A história tem idas e vindas, sem que se transforme em um quebra-cabeças que muitas vezes se torna, na literatura moderna, uma chatice. Nada disso. A ausência de temporalidade linear contribui para o leitor se apoderar da personalidade e dos dramas de cada uma das personagens e chegar progressivamente ao caminho que conduzirá a um desfecho ao mesmo tempo trágico e reconciliador entre o pai Romão e a filha Laurita. E nessas idas e vindas da temporalidade, a memória não está em segundo plano. Ao contrário, ela é fundamental para a construção das personagens neste contexto fluído em que se constrói a bem elaborada estrutura de O Dia do Descanso de Deus.

Enfim, é uma pena que Adroaldo Bauer tenha se decidido tardiamente pela ficção de fôlego. Mas, por outro lado, valeu a espera. Temos agora, diante de nós, uma magnífica tragédia que vai enriquecer a nossa literatura. Desde já estou ansioso para ver nas livrarias e, como pretende o autor, nas bancas de jornais e revistas, O Dia do Descanso de Deus.

Aliás, um longo dia, que dura todo o tempo da novela. Valeu a espera por Adroaldo Bauer escritor.

Adroaldo Bauer

02 setembro, 2007

O dia do Descanso de Deus tira o sossego de leitora

Vida de correria, falta de tempo, exposição constante ao cenário imagético da vida cotidiana...
Quantos são os motivos que nos afastam hoje da ritualidade própria da leitura, que demanda do leitor disposição para se implicar com a “quietude” do livro.
Mesmo sendo amante inveterada de literatura, como não estou imune a este contexto, vinha há algum tempo experimentando a dificuldade de me envolver com este objeto de desejo.
E, diante da culpa por entregar-me ao ócio da leitura que interrompe o ritmo frenético do cotidiano, não hesitava em declinar deste prazer...
Afinal, “Deus ajuda a quem cedo madruga”...
Mas eis que, como que caído do céu, o livro de Adroaldo, que conheci por acaso no Overmundo (bendito acaso!), me devolveu o direito à preguiça.
“O dia do descanso de Deus”. Se Deus descansa, por que eu, pobre mortal, não poderia também descansar?
Mal sabia eu que à preguiça divina sobrevém a insídia pérfida do diabo.
Eu aqui de livro nas mãos deliciando-me com a novela - deixando de lado a rotina escravizante do dia-a-dia – enquanto as criaturas da novela se lascavam num redemoinho de tragédia.
Seria isso justo?
Tanto não seria, que o descanso tão esperado não me foi dado...
Magistralmente fabricada, a trama não me concedeu sossego: a ausência de temporalidade linear exigiu de mim atenção e esperteza; o suspense me deixou tensa; o envolvimento com os dramas das personagens tirou-me o fôlego.
Adroaldo você não me deu descanso e, ainda assim, não me resta outra coisa senão lhe agradecer de coração.
Seu livro me devolveu o que Ítalo Calvino considera como faculdade humana fundamental: a capacidade de fazer brotar - do alinhamento de caracteres alfabéticos negros deitados sobre o papel - a sensibilidade e a imaginação, ingredientes sem os quais a vida não passa de uma página em branco.

Me chamam de Ize.
Mas meu nome é Maria Luiza.
Como a tradição me constitui, por parte de mãe sou Magalhães Bastos, e por parte de pai Oswald.
Sou carioca da gema: nascida, criada e vivida em Ipanema. Ler é uma de minhas predileções. Mas também gosto de passear, de ir à praia, de tomar chopp, de ouvir e contar histórias, de dançar, de conviver com gente, de me implicar com seus casos.

Também gosto de ser professora, profissão que desempenho na Faculdade de Educação e no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Fiz o doutorado porque pesquisar é outra coisa que adoro fazer.
E, coerentemente com minha paixão pela leitura, essa é minha área de interesse no campo do magistério e da pesquisa.
Ia me esquecendo de dizer que sou “overmundana” e que essa condição fez de mim o que mais importa nesse perfil: sou leitora de Adroaldo Bauer.

Twitter Updates

    follow me on Twitter