O mercado financeiro brasileiro não está blindado, mas a valorização
de ações de peso como Vale e Petrobras impulsionaram a alta que registrou novos
recordes históricos do Ibovespa, tendência também atribuída em parte ao
otimismo gerado em Wall Street com a fala de Trump em entrevista de que “a
guerra vai acabar em breve” e que pretende assumir o controle do Estreito de
Ormuz.
A guerra e posterior bloqueio da rota estratégica de Ormuz,
determinaram a disparada dos preços que orientam o mercado,
O desempenho do dólar apresentara continuada tendência de queda
no ano. Apesar da volatilidade imposta pela guerra, a moeda dos EUA ainda mantém
a tendência geral de desvalorização em 2026 em relação ao real.
Durante os ataques iniciais, a moeda estadunidense chegou a
subir cerca de 2%, mas retornou à tendência de baixa no pregão de hoje, uma queda
de 1,52%, cotada a R$ 5,16, após falas de Trump que sugeriram uma desescalada
no conflito.
A alta do petróleo pressiona pela alta dos preços dos
combustíveis e fretes elevando o risco inflacionário. Paradoxalmente, o aumento
do preço do barril de petróleo tipo Brent impulsionou as ações da Petrobras,
que subiram até 3,4% em janelas específicas, ajudando a sustentar o Ibovespa em
meio à crise.
Já a situação da taxa Selic, estacionada nos escorchantes,15%
ao ano, por seu impacto na dívida pública entrou em compasso de espera e observação
do cenário de pressões especulativas de rentistas ou dos movimentos populares.
A taxa básica de juros tem um efeito direto e imediato no
custo de carregamento da dívida do governo. Cada 1% (um ponto percentual) de
alteração na Selic representa uma variação de aproximadamente R$ 55 bilhões no
gasto anual com juros da dívida pública.
Antes do início da guerra contra o Irã, o Banco Central
indicara o início de um ciclo de cortes na taxa de juros a partir da reunião de
18 de março de 2026. Apesar da pressão rentista por manutenção do índice ou por
juros ainda mais altos, o Boletim Focus projetava redução dos juros, a maioria
dos bancos e gestores considerando um corte inicial de 0,5 ponto percentual
ainda este mês.
A Dívida Pública Federal (DPF) superou a marca de R$ 8,6
trilhões em fevereiro de 2026. O Plano Quadrienal do Tesouro estima que a
dívida possa alcançar até R$ 10,3 trilhões até o final de 2026, representando
cerca de 82% a 84% do PIB.
O patamar de 15% é o maior nível em quase 20 anos, o que
torna o custo da dívida extremamente elevado e pressiona o orçamento federal,
intensificando o debate entre o controle da inflação e a sustentabilidade
fiscal.
A pressão dos especuladores e do lobby financeiro foca em
três pilares para evitar quedas acentuadas nos juros:
O "Pretexto" Inflacionário, com o barril de Brent
atingindo US$ 120 devido ao conflito Trump-Irã. Os especuladores argumentam que
a inflação de custos impediria o BC de baixar a Selic. Eles tentam
"ancorar" as expectativas no Boletim Focus para cima, forçando o BC a
ser conservador.
Aposta no Carry Trade: Juros altos (15%) atraem capital
estrangeiro, que lucra com a diferença de taxas. Para esse setor, a queda da
Selic diminui a “rentabilidade fácil”, por isso o lobby por "juros altos
por mais tempo".
Os agentes do rentismo utilizam o montante da dívida (R$
8,6 trilhões) como argumento de que, se os juros caírem sem cortes de gastos
sociais, o país perderia credibilidade. O Banco Central tem sinalizado em 2026 que
a taxa de 15% é "excessivamente restritiva" e está sufocando a
indústria.
A tendência é que o BC ignore o tom mais alarmista dos
especuladores e mantenha o inicie do ciclo de queda agora em março, mirando os
12% até dezembro, para aliviar o custo da dívida (na perspectiva de redução dos
R$ 55 bilhões por ponto).
A governança da Petrobras, o valor de suas ações na bolsa
e a forma de relacionar com os resultados, de outra parte, contribuem para a definição
do humor da bolsa.
O conselho da empresa, influenciado por acionistas e
investidores institucionais, enxerga a distribuição de dividendos como direito
sagrado e trabalha na blindagem “contra o uso político da empresa”. Para esses,
o lucro deve remunerar quem correu o risco do capital, em cenário social qualquer.
A queda de braço entre partição de e dividendos e estabilidade de preços dos
derivados e produtos em geral dependentes de transporte gera conflito direto,
ainda mais com a alta determinada do valor do barril disparando em razão da
guerra.
Na visão dos agentes de mercado, a Petrobras deveria repassar
a alta do Brent para US$ 120 integralmente aos combustíveis para garantir
lucros recordes e dividendos extraordinários. Para o especulador, o impacto na
inflação ou no frete é um "problema do governo".
Na visão do Governo, o excedente de caixa (os mesmos lucros
que virariam dividendos) deveriam ser usados para criar um colchão de
amortecimento, evitando que o diesel dispare e a economia trave, porque “o
futuro é incerto”.
Mesmo em crises globais (como essa guerra de Trump contra o
Irã), o lobby financeiro costuma ser implacável. Argumentam que reter
dividendos afugenta o capital estrangeiro. Dizem que a Petrobras perde valor de
mercado se não for a "melhor pagadora do mundo". Usam a ameaça de
judicialização se a política de paridade internacional (PPI) for abandonada.
Se o Conselho priorizar os dividendos máximos, a Selic
provavelmente terá que ficar mais alta para segurar a inflação gerada pelos
combustíveis caros — o que, como já visto, custa R$ 55 bilhões extras por ponto
percentual na dívida pública.
É o círculo vicioso onde o lucro de poucos encarece a conta
de todos, principalmente dos de baixo que não têm a quem repassar os ônus.
O atual quadro e seu
desdobramento influencia de modo determinante o xadrez político-eleitoral que
define o Brasil em 2026. A aparente "sinuca de bico" pode não ser
técnica, mas é certamente social e de sobrevivência política. Há um delicado
equilíbrio de forças para as eleições de outubro à Presidência, ao Congresso, assembleias
e governos estaduais.
Com a eleição presidencial no
horizonte, o governo sabe que o humor do eleitor - especialmente da
classe média baixa, assalariados, aposentados e pensionistas - é diretamente
proporcional ao preço do botijão de gás e do quilograma da proteína. O
resultado apertado de 2022 deixou a lição de que não há margem para erros ou
"choques de realidade" tarifários.
A armadilha dos juros se apresenta
se o governo o governo age junto a Petrobras para segurar os preços: o mercado
reage elevando o dólar e as taxas futuras de juros (o lobby da especulação).
Isso encareceria a dívida e alimentaria o discurso de "descontrole
fiscal".
A conciliação dos opostos, aparece
como uma tentativa de agradar gregos (acionistas) e troianos (eleitores), e geralmente
resulta em medidas paliativas, como a retenção de dividendos extraordinários
para investimentos em refino, tentando sinalizar ao mercado
"responsabilidade" e ao povo "preocupação com o futuro".
No fim das contas, para o assalariado, o aposentado e
o pensionista, a macroeconomia ainda se resume ao poder de compra no
supermercado.
Se a inflação dos combustíveis corroer o reajuste do
salário mínimo, o prestígio do governante desmorona rapidamente,
independentemente do sucesso do Ibovespa.
Já uma tática de "chutar a lata" dos dividendos
para o fim do ano (pós-eleição) daria ao governo fôlego fiscal necessário sem
romper definitivamente com o mercado, enquanto a queda da Selic — mesmo sob
protestos dos "falcões" do mercado — serviria como o combustível real
para a economia popular chegar viva em outubro.
Lula tem a seu favor "Guerra de Trump" como o
inimigo externo perfeito. Se os preços sobem, a culpa é da geopolítica; se a
economia cresce, é mérito da resiliência brasileira. É o discurso do estadista
que, embora não pare a guerra (como se viu no frustrado plano de paz para
Gaza), protege seu povo dos estilhaços econômicos.
Iniciar a descida da Taxa Selic do patamar dos escorchantes
15% enquanto o mundo arde em inflação de energia é um movimento ousado, mas
apropriado a um Banco Central independente. Possibilita uma aposta de que
o mercado interno (consumo e crédito) compensaria a fuga de capital
especulativo que sempre busca juros altos.
A memória do fracasso das tentativas de mediações de paz
anteriores (Gaza/Ucrânia) serve como um banho de realidade. Se Lula não pode
ser o "pacificador do mundo", ele precisa ser, no mínimo, o "fiador
do prato de comida" para seu próprio povo e, se aliados se apresentarem,
para o mundo.
O eleitor de 2026 não o julgará pela política externa, mas
pelo sucesso em não deixar o Brasil ser engolido pela sinuca construída pela
economia nos tempos de guerra.
No fim, a "confirmação da baixa da Selic" não é
apenas uma decisão técnica, é o que veremos no confronto do que determinar o
Banco Central e a realidade.
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