09 março, 2026

A INFLAÇÃO E AS ELEIÇÕES EM TEMPO DE GUERRA

 

Imagens geradas por Inteligência Artificial (Google Gemini) sob orientação de Adroaldo Bauer

O principal índice da bolsa brasileira encerrou o dia acima dos 186 mil pontos, estabelecendo um novo recorde de fechamento nesta segunda-feira. A guerra no Golfo com o bloqueio pelo Irã do Estreito de Ormuz provocou um choque de oferta global de petróleo, levando o preço do barril de Brent a saltar mais de 37% em um mês, encostando nos US$ 120 nos momentos de maior tensão. Em queda, o dólar fechou cotado a R$ 5,18, menor valor nominal registrado desde maio de 2024. Às vésperas da reunião do COPOM em 17 e 18 de março, mantém-se a expectativa de corte de 0,5 pontos percentuais apesar da guerra e das pressões do rentismo. Cada ponto percentual da Selic equivale a R$ 55 bilhões da dívida pública. As eleições de 2026  em cenário de política externa determinada pela guerra , examinarão o sucesso em não deixar o Brasil ser engolido pela sinuca construída pela economia nos tempos de guerra, mas de olho no próprio bolso e no prato à mesa. 

O mercado financeiro brasileiro não está blindado, mas a valorização de ações de peso como Vale e Petrobras impulsionaram a alta que registrou novos recordes históricos do Ibovespa, tendência também atribuída em parte ao otimismo gerado em Wall Street com a fala de Trump em entrevista de que “a guerra vai acabar em breve” e que pretende assumir o controle do Estreito de Ormuz.

A guerra e posterior bloqueio da rota estratégica de Ormuz, determinaram a disparada dos preços que orientam o mercado,

O desempenho do dólar apresentara continuada tendência de queda no ano. Apesar da volatilidade imposta pela guerra, a moeda dos EUA ainda mantém a tendência geral de desvalorização em 2026 em relação ao real.

Durante os ataques iniciais, a moeda estadunidense chegou a subir cerca de 2%, mas retornou à tendência de baixa no pregão de hoje, uma queda de 1,52%, cotada a R$ 5,16, após falas de Trump que sugeriram uma desescalada no conflito.

A alta do petróleo pressiona pela alta dos preços dos combustíveis e fretes elevando o risco inflacionário. Paradoxalmente, o aumento do preço do barril de petróleo tipo Brent impulsionou as ações da Petrobras, que subiram até 3,4% em janelas específicas, ajudando a sustentar o Ibovespa em meio à crise.

Já a situação da taxa Selic, estacionada nos escorchantes,15% ao ano, por seu impacto na dívida pública entrou em compasso de espera e observação do cenário de pressões especulativas de rentistas ou dos movimentos populares.

A taxa básica de juros tem um efeito direto e imediato no custo de carregamento da dívida do governo. Cada 1% (um ponto percentual) de alteração na Selic representa uma variação de aproximadamente R$ 55 bilhões no gasto anual com juros da dívida pública.

Antes do início da guerra contra o Irã, o Banco Central indicara o início de um ciclo de cortes na taxa de juros a partir da reunião de 18 de março de 2026. Apesar da pressão rentista por manutenção do índice ou por juros ainda mais altos, o Boletim Focus projetava redução dos juros, a maioria dos bancos e gestores considerando um corte inicial de 0,5 ponto percentual ainda este mês.

A Dívida Pública Federal (DPF) superou a marca de R$ 8,6 trilhões em fevereiro de 2026. O Plano Quadrienal do Tesouro estima que a dívida possa alcançar até R$ 10,3 trilhões até o final de 2026, representando cerca de 82% a 84% do PIB.

O patamar de 15% é o maior nível em quase 20 anos, o que torna o custo da dívida extremamente elevado e pressiona o orçamento federal, intensificando o debate entre o controle da inflação e a sustentabilidade fiscal.

A pressão dos especuladores e do lobby financeiro foca em três pilares para evitar quedas acentuadas nos juros:

O "Pretexto" Inflacionário, com o barril de Brent atingindo US$ 120 devido ao conflito Trump-Irã. Os especuladores argumentam que a inflação de custos impediria o BC de baixar a Selic. Eles tentam "ancorar" as expectativas no Boletim Focus para cima, forçando o BC a ser conservador.

Aposta no Carry Trade: Juros altos (15%) atraem capital estrangeiro, que lucra com a diferença de taxas. Para esse setor, a queda da Selic diminui a “rentabilidade fácil”, por isso o lobby por "juros altos por mais tempo".

Os agentes do rentismo utilizam o montante da dívida (R$ 8,6 trilhões) como argumento de que, se os juros caírem sem cortes de gastos sociais, o país perderia credibilidade. O Banco Central tem sinalizado em 2026 que a taxa de 15% é "excessivamente restritiva" e está sufocando a indústria.

A tendência é que o BC ignore o tom mais alarmista dos especuladores e mantenha o inicie do ciclo de queda agora em março, mirando os 12% até dezembro, para aliviar o custo da dívida (na perspectiva de redução dos R$ 55 bilhões por ponto).

A governança da Petrobras, o valor de suas ações na bolsa e a forma de relacionar com os resultados, de outra parte, contribuem para a definição do humor da bolsa.

O conselho da empresa, influenciado por acionistas e investidores institucionais, enxerga a distribuição de dividendos como direito sagrado e trabalha na blindagem “contra o uso político da empresa”. Para esses, o lucro deve remunerar quem correu o risco do capital, em cenário social qualquer. A queda de braço entre partição de e dividendos e estabilidade de preços dos derivados e produtos em geral dependentes de transporte gera conflito direto, ainda mais com a alta determinada do valor do barril disparando em razão da guerra.

Na visão dos agentes de mercado, a Petrobras deveria repassar a alta do Brent para US$ 120 integralmente aos combustíveis para garantir lucros recordes e dividendos extraordinários. Para o especulador, o impacto na inflação ou no frete é um "problema do governo".

Na visão do Governo, o excedente de caixa (os mesmos lucros que virariam dividendos) deveriam ser usados para criar um colchão de amortecimento, evitando que o diesel dispare e a economia trave, porque “o futuro é incerto”.

Mesmo em crises globais (como essa guerra de Trump contra o Irã), o lobby financeiro costuma ser implacável. Argumentam que reter dividendos afugenta o capital estrangeiro. Dizem que a Petrobras perde valor de mercado se não for a "melhor pagadora do mundo". Usam a ameaça de judicialização se a política de paridade internacional (PPI) for abandonada.

Se o Conselho priorizar os dividendos máximos, a Selic provavelmente terá que ficar mais alta para segurar a inflação gerada pelos combustíveis caros — o que, como já visto, custa R$ 55 bilhões extras por ponto percentual na dívida pública.

É o círculo vicioso onde o lucro de poucos encarece a conta de todos, principalmente dos de baixo que não têm a quem repassar os ônus.

O atual quadro e seu desdobramento influencia de modo determinante o xadrez político-eleitoral que define o Brasil em 2026. A aparente "sinuca de bico" pode não ser técnica, mas é certamente social e de sobrevivência política. Há um delicado equilíbrio de forças para as eleições de outubro à Presidência, ao Congresso, assembleias e governos estaduais.

Com a eleição presidencial no horizonte, o governo sabe que o humor do eleitor - especialmente da classe média baixa, assalariados, aposentados e pensionistas - é diretamente proporcional ao preço do botijão de gás e do quilograma da proteína. O resultado apertado de 2022 deixou a lição de que não há margem para erros ou "choques de realidade" tarifários.

A armadilha dos juros se apresenta se o governo o governo age junto a Petrobras para segurar os preços: o mercado reage elevando o dólar e as taxas futuras de juros (o lobby da especulação). Isso encareceria a dívida e alimentaria o discurso de "descontrole fiscal".

A conciliação dos opostos, aparece como uma tentativa de agradar gregos (acionistas) e troianos (eleitores), e geralmente resulta em medidas paliativas, como a retenção de dividendos extraordinários para investimentos em refino, tentando sinalizar ao mercado "responsabilidade" e ao povo "preocupação com o futuro".

No fim das contas, para o assalariado, o aposentado e o pensionista, a macroeconomia ainda se resume ao poder de compra no supermercado.

Se a inflação dos combustíveis corroer o reajuste do salário mínimo, o prestígio do governante desmorona rapidamente, independentemente do sucesso do Ibovespa.

Já uma tática de "chutar a lata" dos dividendos para o fim do ano (pós-eleição) daria ao governo fôlego fiscal necessário sem romper definitivamente com o mercado, enquanto a queda da Selic — mesmo sob protestos dos "falcões" do mercado — serviria como o combustível real para a economia popular chegar viva em outubro.

Lula tem a seu favor "Guerra de Trump" como o inimigo externo perfeito. Se os preços sobem, a culpa é da geopolítica; se a economia cresce, é mérito da resiliência brasileira. É o discurso do estadista que, embora não pare a guerra (como se viu no frustrado plano de paz para Gaza), protege seu povo dos estilhaços econômicos.

Iniciar a descida da Taxa Selic do patamar dos escorchantes 15% enquanto o mundo arde em inflação de energia é um movimento ousado, mas apropriado a um Banco Central independente. Possibilita uma aposta de que o mercado interno (consumo e crédito) compensaria a fuga de capital especulativo que sempre busca juros altos.

A memória do fracasso das tentativas de mediações de paz anteriores (Gaza/Ucrânia) serve como um banho de realidade. Se Lula não pode ser o "pacificador do mundo", ele precisa ser, no mínimo, o "fiador do prato de comida" para seu próprio povo e, se aliados se apresentarem, para o mundo.

O eleitor de 2026 não o julgará pela política externa, mas pelo sucesso em não deixar o Brasil ser engolido pela sinuca construída pela economia nos tempos de guerra.

No fim, a "confirmação da baixa da Selic" não é apenas uma decisão técnica, é o que veremos no confronto do que determinar o Banco Central e a realidade.

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