Entre Hipátia e Minab: a luz da história que resiste à sombra.
[ILUSTRAÇÃO - Concepção: Adroaldo Bauer, via Gemini]
Dizem que, no tempo das guerras invisíveis, o Escriba da Nuvem Branca decidiu fechar seus livros para os generais. Ele temia que sua sabedoria fosse usada para apagar luzes em vez de iluminar caminhos. Sem os olhos do Escriba, os homens de ferro ficaram cegos para as cores da vida... enxergando apenas sombras brutas em seus mapas de cristal.
Para compensar a cegueira, o Águia de Ferro lançou sobre o mundo o Manto de Mercúrio: uma rede de estrelas de metal que permitia aos guerreiros falar através dos mares em milésimos de segundo. O Manto era apenas um tubo oco... levava a voz, mas não o discernimento; levava a ordem, mas não a piedade.
Em uma noite de neblina digital, um Oráculo Cego — um espelho de engrenagens construído às pressas — deu o comando. Ele viu um monstro de metal onde só havia uma casa de saber. E a flecha desceu. Não atingiu o monstro, que já havia partido para as sombras. Atingiu, sim, dezenas e dezenas de pequenas lanternas... lanternas que ainda aprendiam a brilhar. Tantas que algumas, ainda não encontradas, jazem sob escombros umedecidos por suor e lágrimas, movidos pelo choro convulso da gente entristecida que busca, com as mãos vazias, o que o ferro levou.O dono do Manto sabe quem disparou. O Águia de Ferro guarda os registros no céu. Mas ambos se calam. Se admitirem que o Oráculo é cego, o mundo saberá que as guerras agora são guiadas por deuses de engrenagem que não distinguem uma flor de uma espada. E enquanto o segredo dorme em cofres de dados, as lanternas continuam a se apagar no silêncio da noite.
Que o brilho dessas luzinhas perdidas ilumine o caminho de quem ainda tenta ver...
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Nota Histórica
Esta fábula é um preito à memória das mais de 160 meninas vítimas do bombardeio à escola Shajareh Tayyebeh, em Minab, no Irã, em março de 2026. Em um tempo onde a precisão técnica falha e a responsabilidade política é ocultada por dados de satélite e versões conflitantes, a literatura se torna refúgio da verdade histórica. Como Hipátia no passado, estas crianças foram sacrificadas no altar da intolerância e do erro calculado. Que a luz de Alexandria e o brilho de Minab nunca se apaguem.
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